Estudo mostra que estrutura da fala na psicose é resistente a educação formal

Pesquisa desenvolvida no Instituto do Cérebro da UFRN (Brasil) foi publicada na revista npj Schizophrenia, do grupo Nature. O trabalho realizou testes em 200 voluntários de várias idades.

A interação social é a primeira ação para o desenvolvimento da linguagem. Porém, uma pesquisa desenvolvida no Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (ICe-UFRN) revela que o sujeito evolui muito mais de acordo com o nível educacional, ao qual tem acesso, do que com a própria idade cronológica e relações sociais não educacionais.

Com o título “A maturação da estrutura da fala na psicose é resistente a Educação formal”, o estudo desenvolvido pelos pesquisadores Natalia Mota, Mariano Sigman, Guillermo Cecchi, Mauro Copelli e Sidarta Ribeiro, foi publicado na npj Schizophrenia, revista do grupo Nature.

Enquanto a percepção e a produção fonológica de pessoas com desenvolvimento típico são caracteristicamente dominadas nos anos iniciais de vida, vocabulário, sintaxe e gramática continuam amadurecendo até o ensino médio por meio da combinação de desenvolvimento cognitivo e educação, acelerada pela alfabetização e interação social.

No caso de sujeitos com esquizofrenia ou transtorno bipolar do tipo 1, entretanto, a pesquisa mostra que o aprendizado escolar não apresenta a mesma extensão. Nessa população, o discurso geralmente se deteriora em vez de melhorar, mesmo se os sujeitos tiverem uma boa vida educacional durante aparecimento de sintomas psicóticos.

Para explicar as diferenças de verbosidade não patológicas entre os sujeitos, foi utilizada uma análise por grafos não semântica, com número fixo de palavras. 200 voluntários foram ouvidos na pesquisa, sendo 135 indivíduos típicos e 65 pacientes com sintomas psicóticos, com idades entre 2 e 58 anos.

Exemplos representativos de gráficos (iniciais de 30 palavras) de indivíduos nos sujeitos de controle (pontos azuis) e pacientes com psicose (pontos vermelhos). 

Os dados constatam que sujeitos com psicose demonstram na idade adulta uma estrutura discursiva semelhante à de uma criança. “Sujeitos sem sintomas aumentam o alcance da recorrência de palavras ao longo dos anos escolares, mas a mesma característica em indivíduos com psicose resiste à educação. É como se ficasse resistente a esse treino”, reforça a psiquiatra Natalia Mota, primeira autora do trabalho.

Segundo a pesquisadora, os dados apontam que a educação formal precisa ser repensada para pessoas com doenças neuropsiquiátricas com estratégias que sejam mais eficientes para melhorar a cognição.

​Neste sentido, os pesquisadores pensam em estabelecer, na sequência do estudo, marcadores precoces para serem avaliados dentro do ambiente escolar. Se uma criança apresentar algum desenvolvimento atípico na fala, será possível alertar a família e antecipar medidas que reduzam seu sofrimento.

Contudo, Natalia Mota alerta que a educação nessa população não pode ser realizada de maneira separada daqueles que têm desenvolvimento típico, pois o isolamento social amplia o déficit cognitivo desses sujeitos.

“Não é necessário pensar em uma educação especial que promova isolamento, ao contrário, é preciso reinserir esses sujeitos nos contextos escolares, embora a escola deva estar preparada para trabalhar com esta população de maneira mais profunda, dar mais acesso aos ambientes escolares, mais voz e atividade que ajudem no seu desenvolvimento cognitivo”, completa a pesquisadora.

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