O que revelam os estudos sobre os sonhos na quarentena

AMANDA PÉCHY – VEJA

A data: 21 de março de 2020. “Estou no meio de uma floresta. É inverno, com neve acumulada no chão, mas o ar está quente. Sinto uma dor no ombro direito e vejo um enorme inseto parecido com um gafanhoto, que já roeu o tecido do meu suéter e agora arranha minha pele. Depois, um verme branco e fino aparece em meu quadril. Seu toque é como ácido. Alguém diz que todos são imunes a esses seres, mas preciso sair daqui. Ao acordar, me dou conta da dor no quadril, onde o verme estava.” Trata-se, claro, de um sonho — um dos 9 000 compilados no livro Pandemic Dreams (Sonhos da pandemia), de Deirdre Barrett, psicóloga da Universidade Harvard e coautora de um estudo pioneiro sobre o que os indivíduos sonham desde que a Covid-19 passou a fazer parte do cotidiano coletivo. Ao menos cinco outros projetos em diferentes fases de andamento, inclusive no Brasil, estão analisando como a doença contaminou não só o corpo de 70 milhões de pessoas, mas também o inconsciente dos seres humanos.

Reviver no sono acontecimentos traumáticos ajuda a controlar a memória deles, promovendo uma espécie de aprendizado — mais ou menos como na digestão, extraindo o que é benéfico e livrando-se das toxinas. Também os pesadelos têm sua função, treinando respostas para determinadas situações. “A quantidade de sonhos bizarros e assustadores durante a pandemia confirma essas premissas”, diz Natália Mota, pesquisadora do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que desenvolve o estudo “Sonhando durante a pandemia de Covid-19”. Por já compilar sonhos desde antes da crise, a pesquisa pode comparar as mudanças no inconsciente dos indivíduos. “Os temas da morte, segurança pessoal e perdas — do carro, do endereço de casa, da memória — aparecem de múltiplas formas”, relata Natália.

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