Estudo relaciona depressão a processo inflamatório

Por Marcos Neves Jr – Agecom/UFRN

Animador e pioneiro em seus resultados. Assim é classificado um estudo que utiliza a ayahuasca como solução clínica para a depressão resistente ao tratamento convencional. Além de controlar os sintomas depressivos logo um dia após a administração, a substância ocasionou redução de marcadores de inflamação, o que abre caminhos novos na pesquisa de psicodélicos.

Publicado no Journal of Psychopharmacology, o artigo é um desdobramento de uma pesquisa que mostrava o efeito antidepressivo da ayahuasca, realizada por Fernanda Palhano, do laboratório de Neuroimagem Funcional do Instituto do Cérebro (ICe/UFRN). Porém esse estudo partiu da seguinte pergunta: por que ele se dá tão rapidamente? Para investigar tal questão, foram analisadas amostras de sangue e saliva de quatro grupos: 14 pacientes tratados com a ayahuasca, outros 14 com placebo, além de 45 voluntários sem o transtorno que receberam uma substância ou a outra.

Em um intervalo de apenas 48 horas, os pacientes e voluntários tratados com a ayahuasca apresentaram diminuição do perfil inflamatório em relação aos que tomaram o placebo. O biomarcador utilizado para demonstrar essa melhora foi a Proteína C-Reativa, que apresentou redução em seus níveis diante da ayahuasca, sendo correlacionada à melhora dos sintomas depressivos.

Essa proteína é produzida no fígado como resposta a toda ativação de uma cascata inflamatória e, portanto, não é uma exclusividade do organismo das pessoas com depressão. No entanto, a resistência ao tratamento por parte desses pacientes, que somam cerca de 30% dos casos, vêm sendo associada a uma inflamação crônica moderada. Não chega a ser forte como a reação imunológica a um vírus, mas é prolongada e, consequentemente, maléfica.

Nicole Leite Galvão-Coelho, do Departamento de Fisiologia e Comportamento da UFRN.

De acordo com Nicole Leite Galvão-Coelho, professora do Departamento de Fisiologia e Comportamento (DFS/UFRN) e autora principal do artigo, a pesquisa apresenta perspectivas interessantes para o uso de substâncias psicodélicas, aumentando seus horizontes de aplicação.

“Os resultados são bem animadores porque mostram os meios pelos quais esses psicodélicos atuam, reforçando que, além de eles estarem sendo benéficos para sintomas depressivos, também estão melhorando vias fisiológicas alteradas que precisam ser equilibradas para restabelecer a homeostase do indivíduo. Temos de trabalhar mente e corpo na depressão, pois é tudo interligado”, explica a pesquisadora.Não somente animadores, os resultados do estudo são ainda pioneiros. Foi o primeiro ensaio clínico com psicodélico controlado com placebo, o chamado teste duplo cego, a mostrar em humanos um efeito anti-inflamatório. “Com isso, o já efervescente campo de pesquisa com substâncias psicodélicas pode ganhar novos horizontes de aplicação, indo além dos transtornos mentais”, prevê Draulio Araújo, chefe do laboratório de Neuroimagem Funcional, do Instituto do Cérebro (ICe) da UFRN.

Professor Dráulio Araújo, do Instituto do Cérebro, explica que estudos são pioneiros

Com indicação prévia desse efeito anti-inflamatório em estudos teóricos, testes in vitro e em modelos animais, a expectativa de que tais resultados se reproduzissem também em humanos era grande. A professora Nicole, porém, ressalta que a pesquisa precisa continuar para alcançar dados mais abrangentes, embora essas informações já signifiquem um avanço importante.

“Nós achamos para um marcador inflamatório, mas não encontramos para outros, como a interleucina 6, e isso pode ter acontecido por ter sido apenas uma investigação pontual desses biomarcadores no sangue. Precisamos analisar outros pontos após o tratamento para vermos as respostas de diferentes biomarcadores, se elas mudam ao longo do tempo. É o início, trouxe resultados favoráveis, mas necessitamos de mais estudos”, afirma a professora.

Benefícios da ayahuasca

Talvez mais facilmente lembrada entre o grande público como o chá do Santo Daime, graças ao uso religioso que este grupo faz da bebida, a ayahuasca é uma infusão da casca do cipó liana e de outras plantas, em especial a chacrona. A bebida é amplamente difundida entre povos indígenas amazônicos e faz parte da sua medicina tradicional. Do ponto de vista legal, sua regulamentação mais recente no Brasil é de 2010, com permissão de uso para fins ritualísticos.

Pesquisadores, por sua vez, vêm estudando ainda mais a ayahuasca e os seus possíveis benefícios para a saúde. Além dos efeitos anti-inflamatórios, as amostras moleculares analisadas por Nicole e Bruno Lobão, professor do Departamento de Biofísica e Farmacologia (DBF/UFRN), outras consequências interessantes da administração da substância foram encontradas.

Principal hormônio responsável pelo estresse, o cortisol teve seus níveis regulados também após 48 horas em pacientes de depressão. A ayahuasca agiu ainda sobre a proteína conhecida como BDNF. Relacionada à neuroplasticidade, capacidade do sistema nervoso de se adaptar diante de novas experiências e estímulos, essa proteína teve seus níveis elevados, o que não se repetiu no grupo tratado com placebo. Ambas as conclusões geraram artigos anteriormente publicados na revista científica Frontiers.

Por todos esses motivos, o momento é de bastante otimismo para estudiosos dos psicodélicos. Frente ao fato de serem substâncias proibidas na maioria dos países, ocasionando alguma marginalização e um certo arrefecimento nas pesquisas por décadas, Nicole acredita que se vive atualmente uma ressurgência desses estudos e com resultados muito satisfatórios não só da ayahuasca, mas também do LSD e da Psilocibina.

“Abrimos as portas, mostrando que os psicodélicos são também anti-inflamatórios. Quem sabe no futuro não poderemos ter o uso deles no tratamento de doenças autoimunes, por exemplo, que têm um perfil inflamatório muito alto? É o início, temos muito a descobrir e mais estudos a serem feitos, mas com certeza esse estigma será derrubado com ciência, com estudos sérios, de qualidade, pois é assim que se quebram as barreiras”, conclui a pesquisadora.

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