Pesquisadores do Instituto do Cérebro descobriram que o cérebro de pássaros organiza sons complexos em um verdadeiro “mapa” interno, capaz de distinguir vocalizações socialmente relevantes de outros tipos de estímulo. O estudo foi publicado no Journal of Neuroscience com o título “Auditory Representation of Vocal Signals in a Pallial Cortical Circuit”. Trabalhando com fêmeas de mandarim diamante, os neurocientistas identificaram um padrão espacialmente organizado de respostas neurais dentro do nidopálio caudomedial (NCM), uma região auditiva de alta ordem considerada funcionalmente análoga a partes do córtex auditivo humano.
Utilizando técnicas que permitem visualizar genes que são ativados quando os neurônios respondem aos sons, a equipe identificou diferentes “domínios funcionais” no NCM que respondem de maneira diferente ao canto da própria espécie e a outros estímulos acústicos. Esses resultados desafiam a visão tradicional de que a ativação nessa área é difusa e pouco organizada no espaço. Na verdade, diferentes sub-regiões do NCM parecem especializadas no processamento de características espectrais e temporais específicas dos sinais vocais.

Ao revelar uma espécie de “mapa interno” para o processamento de vocalizações complexas, este trabalho oferece uma nova maneira de entender como circuitos corticais em aprendizes vocais, incluindo humanos, codificam e interpretam os sons que sustentam a comunicação social. “É como descobrir que o cérebro tem um “mapa” interno para sons complexos e socialmente relevantes, diferentes de outros tipos de sons. Isso significa que, assim como em nós humanos, existem partes do cérebro das aves que têm uma resposta muito mais robusta aos sons da própria espécie, algo parecido com a área ativada por vozes em nós, humanos”, explica o professor Tarciso Velho, primeiro autor do artigo e vice-diretor do Instituto do Cérebro.
Entender como o cérebro processa e representa sinais vocais é essencial para compreender a comunicação animal. Os pássaros canoros são um modelo ideal para esse tipo de investigação devido ao seu rico comportamento vocal e à organização bem conhecida dos circuitos neurais envolvidos. Neste estudo, os pesquisadores mapearam como diferentes grupos de neurônios, dentro dessa área auditiva, respondem a características específicas dos sons, como frequência e ritmo. Os resultados ampliam o entendimento sobre como o cérebro organiza e interpreta sons complexos, revelando que essa representação pode seguir uma lógica espacial, um princípio que pode ser compartilhado por diferentes espécies, incluindo os seres humanos.
