Desvendando as ondas cerebrais

Foto: José de Paiva Rebouças

Conheça um pouco da trajetória do neurocientista Adriano Tort, escolhido pela Plos Biology como um dos cientistas mais influentes do mundo

O uso de técnicas computacionais para desvendar como o cérebro funciona tem garantido avanços importantes para os estudos das neurociências. Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), pesquisas nessa área colocou o médico e neurocientista Adriano Tort, chefe do Laboratório de Neurofisiologia Computacional do Instituto do Cérebro (ICe), na lista dos cientistas mais influentes do mundo, segundo levantamento da revista Plos Biology. Publicado recentemente, o ranking trouxe sete nomes da UFRN e despertou interesse da população em saber os motivos que os colocam em evidência. 

Adriano Tort foi reconhecido por dois assuntos que estuda com seu grupo, a partir do campo de pesquisa denominado eletrofisiologia. Analisando os sinais elétricos que o cérebro produz, ele conseguiu mostrar que as ondas cerebrais não são fenômenos elétricos isolados, mas padrões elétricos rítmicos que podem interagir entre si. “É como se as diferentes ondas cerebrais ‘conversassem’. Têm-se mostrado que este acoplamento entre frequências se relaciona com funções cognitivas desempenhadas pelo cérebro”, explicou. 

Essa observação o levou a desenvolver uma nova técnica computacional para mensurar essas interações entre ondas cerebrais diferentes. Hoje em dia, essa metodologia, apontada em alguns estudos como Índice Tort, é empregada por diversos laboratórios ao redor do mundo e tem ajudado na compreensão do funcionamento cerebral. 

A segunda linha de pesquisa que Tort vem se dedicando e que tem chamado bastante atenção é o estudo do efeito da respiração sobre a atividade cerebral. Seu grupo foi um dos pioneiros em mostrar que a respiração nasal é capaz de modular a atividade das ondas cerebrais, um achado que tem sido replicado por diversos laboratórios por diferentes técnicas e em diversas espécies de animais, incluindo humanos. “Uma vez que se acredita que as ondas cerebrais desempenham papel importante para o funcionamento do cérebro, mostrar que a respiração modula estas ondas pode indicar um mecanismo pelo qual a respiração poderia afetar a atividade mental”, conta Adriano.

Trajetória 

Adriano Tort nasceu no Rio de Janeiro quando os pais, gaúchos formados em física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), faziam pós-graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sua mãe depois se tornou física-médica trabalhando com radioterapia, enquanto seu pai seguiu carreira docente como professor da UFRJ. “Portanto, o mundo acadêmico esteve presente em minha vida desde cedo”, reflete. 

Foto: José de Paiva Rebouças

Embora sempre tenha gostado das ciências exatas, à época do vestibular Adriano optou por Medicina, segundo ele, “por imaturidade”, já que era o curso mais difícil de entrar. “Escolhi pelo desafio”. No entanto, logo ficou evidente que seu interesse maior estava nos livros e na ciência que gerava aqueles conhecimentos. Isso o levou a se juntar a um laboratório de ciência básica onde trabalhou vários anos como bolsista de iniciação científica. 

Nos últimos anos da medicina, começou a cursar o bacharelado em Física, graduação que concluiu junto com o doutorado em Biologia três anos após se formar em Medicina. Depois da Medicina, e em paralelo ao seu doutorado e ao curso de Física, fez mestrado em Matemática pura, pela fascinação que tinha pelo raciocínio lógico. 

“Hoje em dia, no entanto, eu trabalho numa área que pode ser considerada Matemática Aplicada, já que aplico ferramentas da Matemática e da Física para estudar o cérebro. Estou muito satisfeito nesta área onde posso unir conhecimentos das diferentes disciplinas que aprendi ao longo da carreira. Também estou muito feliz com a escolha profissional de onze anos atrás, de ter me juntado ao projeto de implementação do Instituto do Cérebro da UFRN e de poder contribuir para o desenvolvimento científico do nordeste junto com colegas altamente qualificados”, completou o cientista.

Plos Biology

A escolha dos nomes na lista da revista Plos Biology foi objetiva e determinada por uma métrica criada por cientistas da Universidade de Stanford (EUA) para quantificar a produtividade de pesquisadores individuais. Trata-se de um índice que leva em consideração múltiplos fatores, incluindo número de citações totais, índice h, índice h ajustado pelo número de autores, correções para autocitações e valorização de citações para trabalhos nos quais o pesquisador é o autor principal. 

Segundo Adriano Tort, essa nova métrica composta visa corrigir anomalias que podem aparecer em índices individuais. “Trabalhos com muitos autores tendem a ser mais citados, mas, ao mesmo tempo, costumam ser menos laboriosos para os coautores envolvidos, então muitos consideram injusto que as citações a estes trabalhos sejam consideradas da mesma forma que citações a trabalhos feitos, por exemplo, por dois autores – digamos, somente por um aluno e um professor”, pondera.

Tort explica que, analogamente, artigos nos quais o pesquisador é o autor principal – em biociências, geralmente o primeiro autor, se aluno, ou o último autor, se orientador – costumam demandar muito mais trabalho do que participações em coautoria (autores “do meio”). “Esta nova métrica, portanto, é algo que a própria Capes poderia considerar em adotar em seu sistema de avaliação, que hoje em dia é muito sensível a distorções”, pondera Adriano Tort.

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