Pesquisadores do ICe publicam artigo sobre sonhos e videogame na revista Scientific Reports

Os sonhos podem nos ajudar em situações de vigília? No artigo “Dream content and slow waves benefit prey against predator in a video game confrontation” (Conteúdo onírico e ondas lentas beneficiam a presa contra o predador em um confronto de videogame), publicado no periódico Scientific Reports, do grupo Nature, pesquisadores do Instituto do Cérebro descobriram que os sonhos podem afetar comportamentos da vida cotidiana.

Para compreender o experimento, é necessário entender que todas as espécies animais estudadas apresentam alguma forma de sono, um estado que evoluiu sob a influência constante dos comportamentos de presas e predadores. Hoje entende-se que os sonhos evoluíram como simulações mentais capazes de alertar sobre ameaças próximas do ambiente, como predadores. O estudo conduzido no ICe avaliou como os papéis ecológicos de presa e predador interagem com o sono e os sonhos, utilizando um jogo de tiro em primeira pessoa como um indicador de confrontos entre predador e presa.

Ilustração do artigo explicando como o experimento foi realizado

Os pesquisadores realizaram um experimento onde sinais eletroencefalográficos (EEG) e eletrocardiográficos (ECG) foram registrados simultaneamente em 15 pares de adultos enquanto jogavam uma partida de videogame um contra o outro, tiravam um cochilo, relatavam sonhos e/ou pensamentos e jogavam outra partida. 

A descoberta foi de que os participantes no papel de presa foram altamente afetados pelo sono e pelos sonhos. Seus ganhos de pontuação correlacionaram-se positivamente com a atividade de ondas lentas durante o cochilo, com o quanto os sonhos estavam relacionados ao jogo e com a variação da frequência cardíaca durante a primeira partida. 

Em contraste, nenhuma correlação significativa foi encontrada para os participantes no papel de predador. Os resultados sugerem que a atividade de ondas lentas e o conteúdo dos sonhos relacionados à tarefa predizem o desempenho pós-sono de indivíduos em situações estressantes, de baixa autonomia e semelhantes a presas.

“Os resultados encontrados apontam que o ganho de desempenho das presas na segunda partida em relação à primeira, estava correlacionado com o quanto os seus sonhos estavam relacionados ao jogo. Esses achados apontam a importância do sono e dos sonhos para a adaptação a situações de desvantagem, como a de se sentir uma presa. É nessas horas que precisamos enfatizar ainda mais a importância do sono e dos sonhos, como ferramentas capazes de promover formas de encontrar novos caminhos para a resolução de problemas” explica Daniel Brandão, pesquisador do ICe e primeiro autor do artigo.

 “Nossos achados dialogam com o conceito antropológico de perspectivismo, segundo o qual o antagonismo predador-presa rege a vida mental de humanos e outros animais em ambiente natural. O sonho é um espaço privilegiado onde as perspectivas ecológicas podem ser deslocadas ou mesmo invertidas. Nos sonhos, podemos experimentar momentaneamente o ponto de vista de presa ou predador, reforçando a afirmação central do perspectivismo de que a personalidade e a agência são situacionais e relacionais, em vez de biologicamente determinadas”, comenta o professor Sidarta Ribeiro, orientador das pesquisas de doutorado de Daniel Brandão e de Rafael Scott, que embasam o trabalho.