{"id":343,"date":"2018-07-06T00:00:00","date_gmt":"2018-07-06T03:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-10-04T11:37:47","modified_gmt":"2018-10-04T14:37:47","slug":"revista-veja-destaca-pesquisa-sobre-ayahuasca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/2018\/07\/06\/revista-veja-destaca-pesquisa-sobre-ayahuasca\/","title":{"rendered":"Revista Veja destaca pesquisa sobre Ayahuasca"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-749\" src=\"http:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/entry494.png\" alt=\"\" width=\"680\" height=\"453\" srcset=\"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/entry494.png 680w, https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/entry494-300x200.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" \/><\/p>\n<p>O ch\u00e1 ayahuasca, utilizado em rituais religiosos como os do santo-\u00addaime, mostrou-se eficaz no combate ao tipo de depress\u00e3o mais severa, aquela que responde mal aos medicamentos dispon\u00edveis e acomete 100 milh\u00f5es de pessoas no mundo, 4 milh\u00f5es delas no Brasil. Conduzido pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e rec\u00e9m-publicado no peri\u00f3dico brit\u00e2nico Psychological Medicine, o trabalho \u00e9 o primeiro a avaliar de forma controlada os benef\u00edcios de uma subst\u00e2ncia psicod\u00e9lica (ou seja, que provoca altera\u00e7\u00f5es na percep\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia) no tratamento da doen\u00e7a. O estudo envolveu 29 pacientes, com idade entre 21 e 59 anos, que conviviam com a doen\u00e7a havia onze anos, em m\u00e9dia. Parte deles ingeriu uma bebida in\u00f3cua e a outra parte recebeu uma \u00fanica dose do ch\u00e1, em quantidades que variaram de um quarto a meia x\u00edcara, dependendo do peso corporal de cada um deles.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-750 size-full\" src=\"http:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/entry494_1.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"868\" srcset=\"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/entry494_1.png 300w, https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/entry494_1-104x300.png 104w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>A administra\u00e7\u00e3o da ayahuasca exigiu cuidados especiais. Para que seus efeitos colaterais agudos fossem minimizados \u2014 al\u00e9m das alucina\u00e7\u00f5es, ela pode provocar tonturas e enjoos \u2014, os pacientes receberam a bebida no hospital. Os quartos foram preparados para proporcionar-lhes um ambiente de tranquilidade \u2014 decorados com plantas e iluminados por luz natural. Depois de ingerirem o ch\u00e1, os participantes, sempre acompanhados de dois pesquisadores do estudo, foram orientados a permanecer em sil\u00eancio, pensando no pr\u00f3prio corpo e com os olhos fechados. A maioria recebeu alta no fim do dia. O efeito foi gradual. Todos os pacientes se submeteram a um question\u00e1rio sobre a depress\u00e3o, al\u00e9m de exames de sangue e de imagem, antes e depois do experimento. Um dia depois, aqueles que haviam ingerido o ch\u00e1 tiveram redu\u00e7\u00e3o de 50% na intensidade dos sintomas da depress\u00e3o. Uma semana depois, essa diminui\u00e7\u00e3o foi ainda mais pronunciada \u2014 de 64%, o dobro do verificado entre os participantes que tomaram o placebo.<\/p>\n<p>O resultado significa que, de portadores de depress\u00e3o grave, os pacientes passaram a ser portadores do tipo leve da doen\u00e7a. Os achados ainda n\u00e3o permitem dizer se os efeitos notados \u2014 redu\u00e7\u00e3o de pensamentos suicidas, melhora na qualidade do sono e diminui\u00e7\u00e3o do sentimento de tristeza \u2014 s\u00e3o permanentes. Para averiguar esse aspecto decisivo, novos estudos ser\u00e3o necess\u00e1rios. As primeiras suspeitas de que a ayahuasca teria alguma a\u00e7\u00e3o contra a doen\u00e7a mental surgiram nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, quando avalia\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas observaram que os consumidores da bebida em rituais apresentavam \u00edndices baixos de des\u00e2nimo cr\u00f4nico.<\/p>\n<p>As origens do uso da ayahuasca remontam \u00e0 pr\u00e9-hist\u00f3ria. H\u00e1 evid\u00eancias arqueol\u00f3gicas pict\u00f3ricas que indicam a utiliza\u00e7\u00e3o da planta alucin\u00f3gena desde 2000 a.C. No s\u00e9culo XVI, padres colonizadores j\u00e1 descreviam o emprego da bebida entre ind\u00edgenas. O ch\u00e1 popularizou-se por meio do movimento religioso santo-daime, na d\u00e9cada de 20. O Brasil \u00e9 um dos poucos pa\u00edses que liberam a ayahuasca, mas com restri\u00e7\u00f5es \u2014 apenas para rituais de doutrinas espec\u00edficas. Tal uso, por\u00e9m, s\u00f3 foi autorizado por lei em 1987.<\/p>\n<p>Amargo e de colora\u00e7\u00e3o marrom-escura, o ch\u00e1 \u00e9 feito da mistura de compostos de duas plantas encontradas apenas na Floresta Amaz\u00f4nica: as folhas do arbusto Psychotria viridis e do cip\u00f3 Banisteriopsis caapi. A primeira cont\u00e9m uma subst\u00e2ncia que causa alucina\u00e7\u00f5es cujo nome \u00e9 dif\u00edcil pronunciar: dimetiltriptamina, conhecida pela sigla DMT. Ela age contra a depress\u00e3o ao se ligar aos neur\u00f4nios, aumentando a disponibilidade de serotonina, horm\u00f4nio deficit\u00e1rio na maioria dos portadores da doen\u00e7a (veja o quadro). J\u00e1 o cip\u00f3 cont\u00e9m subst\u00e2ncias que facilitam a a\u00e7\u00e3o da primeira, mantendo a serotonina por mais tempo em circula\u00e7\u00e3o no organismo. \u201cAl\u00e9m disso, a ayahuasca estimula a irriga\u00e7\u00e3o de sangue em \u00e1reas do c\u00e9rebro envolvidas no processamento das emo\u00e7\u00f5es e modula\u00e7\u00e3o dos estados de humor\u201d, explica o neurocientista Dr\u00e1ulio Ara\u00fajo, professor do Instituto do C\u00e9rebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.<\/p>\n<p>A pesquisa brasileira com a aya\u00adhuas\u00adca marca uma volta aos estudos dos efeitos das drogas psicod\u00e9licas nas doen\u00e7as mentais, populares nos anos 60. Um dos mais conhecidos foi o de autoria do psic\u00f3logo Timothy Leary, da Universidade Harvard. Leary, que analisou os efeitos terap\u00eauticos do LSD, foi acusado de falta de rigor cient\u00edfico e acabou demitido da universidade \u2014 terminou a vida como guru. Nos \u00faltimos anos, por\u00e9m, os conhecimentos aprofundados sobre o funcionamento do c\u00e9rebro mostraram que \u00e9 poss\u00edvel conduzir esse tipo de trabalho com maior rigor e seguran\u00e7a. Levantamentos com a psilocibina, por exemplo, um alucin\u00f3geno encontrado nos cogumelos, t\u00eam se mostrado efetivos no al\u00edvio da ansiedade em pacientes com c\u00e2ncer terminal.<\/p>\n<p>O estudo mais avan\u00e7ado, no entanto, \u00e9 com o MDMA, o princ\u00edpio do ecstasy, no tratamento do transtorno p\u00f3s-traum\u00e1tico. Prestes a passar para a fase 3, ou seja, a \u00faltima etapa, uma pesquisa publicada neste ano na revista brit\u00e2nica The Lancet Psychiatry revelou que a droga reduziu os sintomas da doen\u00e7a em 68% dos 26 participantes (socorristas e veteranos de combate). O MDMA aumenta no c\u00e9rebro a disponibilidade de horm\u00f4nios associados a sentimentos de confian\u00e7a e bem-\u00adestar \u2014 al\u00e9m da serotonina, tamb\u00e9m o cortisol. No tratamento do transtorno p\u00f3s-traum\u00e1tico, esses horm\u00f4nios permitem que os pacientes passem a lidar melhor com as lembran\u00e7as ruins. Se os testes em larga escala conseguirem repetir os resultados obtidos at\u00e9 agora, o medicamento poder\u00e1 ser aprovado para uso legal at\u00e9 2022.<\/p>\n<p><b>Veja no link:<br \/>\n<\/b><a href=\" https:\/\/veja.abril.com.br\/revista-veja\/cha-contra-a-depressao\/\" target=\"_blank&quot;\">https:\/\/veja.abril.com.br\/revista-veja\/cha-contra-a-depressao\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ch\u00e1 ayahuasca, utilizado em rituais religiosos como os do santo-\u00addaime, mostrou-se eficaz no combate ao tipo de depress\u00e3o mais severa, aquela que responde mal aos medicamentos dispon\u00edveis e acomete 100 milh\u00f5es de pessoas no mundo, 4 milh\u00f5es delas no Brasil. 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