{"id":299,"date":"2018-02-20T00:00:00","date_gmt":"2018-02-20T03:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-10-04T16:42:43","modified_gmt":"2018-10-04T19:42:43","slug":"cientistas-brasileiros-testam-mdma-para-tratar-transtorno-de-estresse-pos-traumatico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/2018\/02\/20\/cientistas-brasileiros-testam-mdma-para-tratar-transtorno-de-estresse-pos-traumatico\/","title":{"rendered":"Cientistas brasileiros testam MDMA para tratar transtorno de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico"},"content":{"rendered":"<p>Pesquisadores avaliar\u00e3o o potencial do princ\u00edpio ativo do ecstasy com ajuda de volunt\u00e1rios<\/p>\n<p>Por RAFAEL CISCATI\/FOLHA DE S\u00c3O PAULO<br \/>\n<img decoding=\"async\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" src=\"http:\/\/neuro.ufrn.br\/_imgs\/noticia446.jpg\" width=\"100%\" \/><\/p>\n<p>S\u00c3O PAULO &#8211; O comprimido \u00e9 usado em festas, causa euforia e \u00e9 ilegal. Por d\u00e9cadas, o MDMA \u2014 o princ\u00edpio ativo do ecstasy \u2014 foi usado \u00e0s escondidas, at\u00e9 ser redescoberto pela ci\u00eancia. Em mar\u00e7o, uma equipe de pesquisadores liderada pelo neurocientista Eduardo Schenberg vai avaliar, com a ajuda de volunt\u00e1rios brasileiros, o potencial da metilenodioximetanfetamina (seu nome completo) para tratar o transtorno de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico. At\u00e9 hoje a ci\u00eancia ainda n\u00e3o conseguiu desenvolver bons tratamentos para esse dist\u00farbio psiqui\u00e1trico.<\/p>\n<p>A equipe de Schenberg vai selecionar quatro pacientes que sofrem com o transtorno h\u00e1 mais de seis meses e n\u00e3o responderam \u00e0s abordagens convencionais. Dez interessados j\u00e1 entraram em contato. Com o estudo, o primeiro a avaliar a seguran\u00e7a e o potencial terap\u00eautico do MDMA no Brasil, o pa\u00eds passa a fazer parte de um esfor\u00e7o de pesquisa internacional. Nos EUA, estudos assim s\u00e3o realizados desde os anos 1990, com resultados positivos. O composto j\u00e1 despertou a aten\u00e7\u00e3o do governo americano \u2014 em agosto, a FDA, \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel por regulamentar rem\u00e9dios e tratamentos, classificou as terapias com MDMA como \u201cdisruptivas\u201d. O status indica que os EUA pretendem acelerar a regulamenta\u00e7\u00e3o do tratamento, para torn\u00e1-lo dispon\u00edvel ao p\u00fablico nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>Os pacientes brasileiros far\u00e3o 15 sess\u00f5es semanais de psicoterapia, sendo tr\u00eas sob efeito da droga, para discutir seus traumas com uma dupla de terapeutas. Tudo em ambiente controlado \u2014 um consult\u00f3rio com sof\u00e1s e m\u00fasica instrumental \u2014 e na presen\u00e7a de m\u00e9dicos prontos a atender emerg\u00eancias. O financiamento ficou por conta da ONG criada por Schenberg, a Plantando Consci\u00eancia, que levantou R$ 53,3 mil atrav\u00e9s de uma campanha de crowdfunding. A subst\u00e2ncia, fabricada nos EUA, ser\u00e1 fornecida pela Associa\u00e7\u00e3o Multidisciplinar para Estudos Psicod\u00e9licos (MAPS, na sigla em ingl\u00eas) \u2014 organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos pioneira em estudos sobre o tema.<\/p>\n<p>O dist\u00farbio acomete v\u00edtimas de viol\u00eancia grave, como estupro e sequestro, ou que vivenciaram guerras e desastres naturais. Trat\u00e1-lo \u00e9 um desafio: a abordagem tradicional envolve sess\u00f5es de terapia, conduzidas por psic\u00f3logos; e antidepressivos, receitados por psiquiatras. Cabe ao paciente frequentar os consult\u00f3rios desses dois profissionais. Os benef\u00edcios podem levar anos para aparecer. Muitas vezes, nunca surgem:<\/p>\n<p>\u2014 A terapia tradicional falha porque muitas vezes o trauma foi t\u00e3o violento que o paciente sequer consegue falar a respeito \u2014 afirma Schenberg.<\/p>\n<p>Os estudos da MAPS demonstraram que, com o aux\u00edlio do MDMA, os pacientes se sentem mais livres para discutir seus traumas. E os benef\u00edcios aumentam: um trabalho publicado em 2010 mostrou que 83% dos pacientes relataram melhoras, contra 25% daqueles que receberam placebo. Os benef\u00edcios s\u00e3o duradouros \u2014 em outro estudo, publicado em 2012, os cientistas mostraram que pacientes que fizeram a terapia no in\u00edcio dos anos 2000 n\u00e3o manifestavam sintomas da doen\u00e7a, mesmo mais de dez anos depois.<\/p>\n<p>O interesse de Schenberg pelo tema \u00e9 antigo. O cientista, formado pela Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), fez parte da equipe do Imperial College de Londres que monitorou as mudan\u00e7as nas fun\u00e7\u00f5es cerebrais durante o uso de LSD, outra droga psicod\u00e9lica \u2014 nome dado \u00e0s subst\u00e2ncias que alteram a percep\u00e7\u00e3o da realidade. Seus achados, publicados em 2016, chegaram a ser chamados de \u201co B\u00f3son de Higgs\u201d da psiquiatria, em refer\u00eancia \u00e0 part\u00edcula fundamental detectada em 2012.<\/p>\n<p>Seu novo estudo n\u00e3o tem v\u00ednculos oficiais com nenhuma universidade brasileira, mas ser\u00e1 acompanhado por tr\u00eas conselheiros que s\u00e3o professores universit\u00e1rios: o psiquiatra Dartiu Xavier, da Unifesp (que ajudou Schenberg a selecionar os terapeutas que participar\u00e3o da pesquisa); o professor Lu\u00eds Fernando T\u00f3foli, da Unicamp; e o neurocientista Sidarta Ribeiro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).<\/p>\n<p>Com apenas quatro volunt\u00e1rios, a pesquisa brasileira \u00e9 o que os cientistas chamam de ensaio cl\u00ednico fase 2. Em junho deste ano, a MAPS dar\u00e1 in\u00edcio a um ensaio cl\u00ednico fase 3 \u2014 a \u00faltima etapa exigida pela FDA para disponibilizar o novo tratamento ao p\u00fablico. Devem participar 300 volunt\u00e1rios, divididos em centros de pesquisa nos EUA, Canad\u00e1 e Israel. O Brasil tamb\u00e9m pretende entrar nesse grupo, logo que concluir o estudo atual. Nos c\u00e1lculos da MAPS, o tratamento poder\u00e1 estar dispon\u00edvel aos americanos at\u00e9 2021. Para o mesmo acontecer no Brasil, \u00e9 preciso registro na Anvisa.<\/p>\n<p><b>V\u00edtimas da viol\u00eancia urbana<\/b><\/p>\n<p>Estimativas indicam que 7% dos americanos sofrem com o transtorno, sobretudo veteranos de guerra. H\u00e1 no pa\u00eds o temor de que o entusiasmo estimule a procura por ecstasy. O MDMA \u00e9 considerado uma droga de baixo potencial viciante. Frequentemente, o ecstasy vendido ilegalmente n\u00e3o cont\u00e9m MDMA.<\/p>\n<p>\u2014 Somente uma s\u00e9rie de contaminantes que podem causar preju\u00edzos \u00e0 sa\u00fade \u2014 diz Schenberg. \u2014 N\u00e3o estamos defendendo o uso recreativo da droga.<\/p>\n<p>No Brasil, o p\u00fablico preferencial do novo tratamento s\u00e3o v\u00edtimas de viol\u00eancia urbana. Dentre aqueles que entraram em contato com o grupo de Schenberg, h\u00e1 policiais, bombeiros e v\u00edtimas de abuso sexual.<\/p>\n<p><b>Subst\u00e2ncia foi sintetizada em 1912<\/b><\/p>\n<p>Os resultados promissores do MDMA s\u00e3o ainda um mist\u00e9rio para os cientistas. A droga atua sobre um receptor qu\u00edmico do c\u00e9rebro chamado serotonina, associado a oscila\u00e7\u00f5es de humor. Suspeita-se que, por isso, ajude desinibir o paciente e a criar la\u00e7os de confian\u00e7a entre ele e o terapeuta.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da subst\u00e2ncia \u00e9 sinuosa. O MDMA foi sintetizado em 1912, por uma ind\u00fastria alem\u00e3. Ficou sem uso at\u00e9 os anos 1970, quando o qu\u00edmico americano Alexander Shulgin percebeu que induzia estados de euforia e poderia ter valor terap\u00eautico. \u00c0quela altura, a patente do MDMA j\u00e1 havia expirado, e Shulgin apresentou a droga a um grupo de terapeutas, que passaram a estudar seu potencial no tratamento de transtorno de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico. Pouco depois, ela seria descoberta por p\u00fablico mais amplo, vendida em festas e proibida pelo governo americano.<\/p>\n<p>Seu retorno acontece em um momento em que a psiquiatria vive uma crise de criatividade. H\u00e1 d\u00e9cadas, esse ramo da ci\u00eancia n\u00e3o desenvolve novos tratamentos ou novas drogas eficientes. Nesse contexto, os trabalhos com drogas psicod\u00e9licas ganham espa\u00e7o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadores avaliar\u00e3o o potencial do princ\u00edpio ativo do ecstasy com ajuda de volunt\u00e1rios Por RAFAEL CISCATI\/FOLHA DE S\u00c3O PAULO S\u00c3O PAULO &#8211; O comprimido \u00e9 usado em festas, causa euforia e \u00e9 ilegal. Por d\u00e9cadas, o MDMA \u2014 o princ\u00edpio ativo do ecstasy \u2014 foi usado \u00e0s escondidas, at\u00e9 ser redescoberto pela ci\u00eancia. Em mar\u00e7o, uma equipe de pesquisadores liderada [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-299","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ice-na-midia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/299","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=299"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/299\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":887,"href":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/299\/revisions\/887"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=299"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=299"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=299"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}