{"id":2336,"date":"2021-01-11T12:07:25","date_gmt":"2021-01-11T15:07:25","guid":{"rendered":"http:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/?p=2336"},"modified":"2021-02-11T12:10:44","modified_gmt":"2021-02-11T15:10:44","slug":"pesadelo-em-manaus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/2021\/01\/11\/pesadelo-em-manaus\/","title":{"rendered":"Pesadelo em Manaus"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Di\u00e1logo de professor Sergio Neuenschwander, do ICe, \u00e9 destaque em mat\u00e9ria da Revista Piau\u00ed<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/pesadelo-em-manaus\/\" target=\"_blank\">EDUARDO ESCOREL &#8211; PIAU\u00cd<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O<\/strong>que aconteceu em Manaus na \u00faltima semana \u00e9 desesperador. Dif\u00edcil pensar em qualquer outra coisa, a n\u00e3o ser nessa trag\u00e9dia. Diante de tamanho sofrimento, sobre o que eu poderia escrever ao retomar esta coluna, passado um curto per\u00edodo de f\u00e9rias?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em artigo publicado no \u00faltimo s\u00e1bado (16),&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/ecoa\/colunas\/julian-fuks\/2021\/01\/16\/o-inimaginavel-em-manaus-retrato-de-um-pais-a-beira-da-asfixia-estatal.htm?cmpid=copiaecola\">no UOL<\/a>, o escritor Juli\u00e1n Fuks reagiu com presteza \u00e0 trag\u00e9dia brasileira. O t\u00edtulo de sua coluna \u00e9&nbsp;<em>O inimagin\u00e1vel em Manaus: retrato de um pa\u00eds \u00e0 beira da asfixia estatal<\/em>. Tomo a liberdade de sintetiz\u00e1-la aqui, mas recomendo a leitura na \u00edntegra:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u00c9 inimagin\u00e1vel. O que nos chega numa profus\u00e3o de not\u00edcias dram\u00e1ticas, de v\u00eddeos ca\u00f3ticos, de \u00e1udios desesperados, o que subjaz \u00e0 afli\u00e7\u00e3o de tantas vozes, sim, \u00e9 inimagin\u00e1vel. O que acontece neste mesmo instante atr\u00e1s das fachadas dos hospitais, atrav\u00e9s de suas portas escancaradas, por seus corredores abarrotados, nas c\u00e2maras de cuidado que se fizeram c\u00e2maras de morte: \u00e9 inimagin\u00e1vel. O que nenhum fot\u00f3grafo at\u00e9 agora parece ter se atrevido a registrar, nenhum cinegrafista, os corpos arfantes subitamente privados do elemento mais essencial: \u00e9 inimagin\u00e1vel. E porque \u00e9 inimagin\u00e1vel, e porque seu horror foge \u00e0s palavras, vale a incita\u00e7\u00e3o de Didi-Huberman: devemos imagin\u00e1-lo apesar de tudo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[\u2026]<em>&nbsp;Neste caso espec\u00edfico, basta a imagem que constitu\u00edmos em nossas mentes, o cen\u00e1rio de terror composto pelos relatos que nos chegam de Manaus. H\u00e1 homens e mulheres morrendo por falta de oxig\u00eanio dentro dos hospitais, definhando no exato espa\u00e7o que os deveria salvar.&nbsp;<\/em>[\u2026]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fuks conclui, mais adiante no texto:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Somo a minha voz aflita a tantas outras vozes. Por sua condu\u00e7\u00e3o desastrosa da pandemia, equivocada em todos os aspectos, deliberadamente irrespons\u00e1vel e impiedosa, Bolsonaro tem que ser afastado do poder. Cabe imaginar o inimagin\u00e1vel: que a urg\u00eancia seja enfim reconhecida, e que as muitas for\u00e7as do pa\u00eds se somem nessa medida indispens\u00e1vel. Quem sabe assim o oxig\u00eanio volte a circular entre n\u00f3s, quem sabe assim o pa\u00eds escape \u00e0 morte por asfixia estatal\u2026<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>P<\/strong>assado pouco mais de um m\u00eas desde que minha \u00faltima coluna de 2020 foi publicada, no dia 16 de dezembro, o n\u00famero de v\u00edtimas fatais da Covid-19 no Brasil pulou de 180 mil para mais de 210 mil. A m\u00e9dia m\u00f3vel de mortes nos \u00faltimos catorze dias aumentou 36%. J\u00e1 foram contaminados pelo novo coronav\u00edrus mais de 8,5 milh\u00f5es de brasileiros, e a m\u00e9dia m\u00f3vel de casos subiu 53% em duas semanas. Quem \u00e9 respons\u00e1vel por essa calamidade? N\u00f3s sabemos quem. Embora n\u00e3o seja o \u00fanico, ele \u00e9 certamente o principal respons\u00e1vel e deve responder por isso, perdendo o mandato que hoje exerce e sendo proibido de concorrer a qualquer cargo eletivo no futuro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As trapalhadas do governo federal submetem a vacina\u00e7\u00e3o a incertezas recorrentes. A atua\u00e7\u00e3o criminosa do Planalto fez do Brasil o segundo pa\u00eds do mundo com mais mortes pela Covid-19, atr\u00e1s apenas dos Estados Unidos. No momento em que esta coluna est\u00e1 sendo publicada, somos tamb\u00e9m o terceiro pa\u00eds em quantidade de contaminados pelo v\u00edrus, perdendo s\u00f3 para americanos e indianos. Drauzio Varella foi muito claro na entrevista que deu \u00e0 GloboNews, na \u00faltima semana, quando enfatizou o que precisa ser feito hoje:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>N\u00f3s temos que dizer para a popula\u00e7\u00e3o: voc\u00eas t\u00eam que tomar a vacina para n\u00e3o correr o risco de aumentar o n\u00famero de mortes que n\u00f3s temos no Brasil, que \u00e9 absolutamente injustific\u00e1vel. Porque a\u00ed a morte \u00e9 por uma causa evit\u00e1vel. \u00c9 vergonhoso que um pa\u00eds como o nosso, com o SUS que n\u00f3s temos, com condi\u00e7\u00f5es de prestar ajuda m\u00e9dica \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, tenha que enfrentar esse n\u00famero de mortes.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>N<\/strong>a esfera restrita do cinema, uma rea\u00e7\u00e3o expressiva \u00e0 pandemia \u00e9&nbsp;<em>I am a live<\/em>, de Cao Guimar\u00e3es \u2013 v\u00eddeo de 10 minutos e 22 segundos que fica em exibi\u00e7\u00e3o at\u00e9 7 de fevereiro na Galeria Nara Roesler, em S\u00e3o Paulo. O curta-metragem faz parte da exposi\u00e7\u00e3o coletiva&nbsp;<em>Na Espera: Produ\u00e7\u00e3o no Isolamento,<\/em>&nbsp;que re\u00fane obras realizadas durante a quarentena. A partir do t\u00edtulo, Guimar\u00e3es indica ter se tornado uma&nbsp;<em>live<\/em>&nbsp;ambulante, restrito a encontros virtuais devido \u00e0s medidas de isolamento contra o coronav\u00edrus. Contatos pessoais, apenas com o c\u00edrculo familiar mais pr\u00f3ximo. Ao mesmo tempo, para quem estiver disposto a ouvir, o artista avisa nesse mesmo t\u00edtulo, a meia voz, que est\u00e1 vivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O v\u00eddeo de Guimar\u00e3es transcorre em dimens\u00f5es distintas e bem harmonizadas. Uma \u00e9 visual; a outra, sonora. Do come\u00e7o ao fim do curta-metragem predominam imagens em grada\u00e7\u00f5es de cinza e branco. Vemos vegeta\u00e7\u00e3o e caminhos desertos \u00e0 beira-mar, envoltos em n\u00e9voa densa \u2013 ambiente on\u00edrico t\u00e3o bonito quanto desolador. O \u00e1udio, al\u00e9m da trilha sonora do grupo musical O Grivo \u2013 not\u00e1vel, como sempre \u2013, inclui a grava\u00e7\u00e3o de uma&nbsp;<em>live<\/em>&nbsp;em que dois homens conversam. Um deles \u00e9 o neurocientista e professor titular na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Sergio Neuenschwander; o outro, o contista, ensa\u00edsta e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Teodoro Renn\u00f3 Assun\u00e7\u00e3o. O tema do di\u00e1logo \u00e9 a morte. Reproduzo um trecho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neuenschwander:&nbsp;<em>Agora, a ideia da morte, ela s\u00f3 \u00e9 poderosa por uma \u00fanica coisa maravilhosa que o ser humano tem que se chama consci\u00eancia. Porque voc\u00ea s\u00f3 pode morrer sofrendo [se estiver] consciente. Isso \u00e9 muito importante. Inclusive, a medicina de hoje procura avaliar a ideia da morte roubando a sua consci\u00eancia\u2026<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assun\u00e7\u00e3o:&nbsp;<em>Eu quero ter o direito de me matar. N\u00e3o quero ser morto por um v\u00edrus, n\u00e3o. Eu quero ter esse luxo de quem sabe decidir a pr\u00f3pria morte. \u00c9 muito diferente voc\u00ea estar deprimido e pensar em se matar, e ser acometido por um v\u00edrus e ter de morrer, mesmo sem querer. \u00c9 bem diferente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neuenschwander:<em>&nbsp;Estranhamente, a gente tem uma no\u00e7\u00e3o muito clara sobre a morte. Sabe por qu\u00ea? Porque a gente morre todos os dias. Quando voc\u00ea perde a consci\u00eancia. Quando voc\u00ea dorme sem sonhar, voc\u00ea est\u00e1 morto. Ent\u00e3o, a gente tem uma experi\u00eancia muito rica sobre a morte, todos os dias.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pouco antes de o v\u00eddeo terminar, surge por um instante a imagem da tela de um laptop dividida durante a&nbsp;<em>live<\/em>. Al\u00e9m de Beto Magalh\u00e3es, Cao Guimar\u00e3es transborda de satisfa\u00e7\u00e3o enquanto ouve a conversa entre o neurocientista e o escritor, seus amigos de longa data.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/escorel2_190121_interna.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-393969\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assun\u00e7\u00e3o:&nbsp;<em>Tem um livro, esse livro \u00e9 muito interessante. Olha s\u00f3 como ele chega ao detalhe, aonde ele vai chegar para dizer que a gente est\u00e1 sempre apagando. Al\u00e9m do sono toda noite, ao piscar os olhos. Ningu\u00e9m consegue ficar sem piscar os olhos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segue-se uma breve sequ\u00eancia de encerramento, feita de piscadas visuais \u2013 imagens alternadas com tela preta, todas com dura\u00e7\u00e3o inferior a um segundo. E o v\u00eddeo termina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem escreve com conhecimento de causa sobre o inimagin\u00e1vel em Manaus \u00e9 Milton Hatoum, em sua coluna no jornal&nbsp;<em>O Globo<\/em>, no \u00faltimo domingo (17): \u201c\u00c9 na conflu\u00eancia de incompet\u00eancia, descaso e crueldade que reside a trag\u00e9dia de Manaus e no interior do Amazonas. A morte de dezenas, talvez de centenas de brasileiros por falta de oxig\u00eanio \u00e9 uma ironia macabra: afinal, o estere\u00f3tipo mais conhecido da Amaz\u00f4nia \u00e9 o \u2018pulm\u00e3o do mundo\u2019 [\u2026] O governo atual regozija-se com a plataforma de explora\u00e7\u00e3o de g\u00e1s no Campo de Azul\u00e3o, mas falta oxig\u00eanio para beb\u00eas, pacientes com insufici\u00eancia respirat\u00f3ria e para doentes de Covid-19 [\u2026] H\u00e1 d\u00e9cadas o povo amazonense \u00e9 v\u00edtima de descaso, humilha\u00e7\u00e3o, engana\u00e7\u00e3o, crueldade. Morrer por falta de oxig\u00eanio \u00e9 o \u00e1pice desse exerc\u00edcio de crueldade.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">*<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Callado<\/em>, de Em\u00edlia Silveira, estreia nas salas de cinema amanh\u00e3, quinta-feira (21), no Rio de Janeiro e em S\u00e3o Paulo. Antonio Callado, falecido em janeiro de 1997, completaria 104 anos no pr\u00f3ximo dia 26. Com roteiro de Miguel Paiva e Silveira, o document\u00e1rio, feito com apuro e com um acervo valioso, nos traz de volta o autor de<em>\u00a0Quarup<\/em>\u00a0em momento mais do que oportuno. \u00c9 Callado quem diz no filme que \u201ctanto o poeta como o romancista\u2026 esse homem n\u00e3o pode fingir que n\u00e3o tem nada que ver com o que est\u00e1 ocorrendo em volta dele. Isso, eu acho absolutamente monstruoso. Sobretudo em momentos graves da vida nacional. E voc\u00ea sabe que a gente vive momentos graves neste pa\u00eds. Ele n\u00e3o pode alegar que como ele \u00e9\u00a0<em>escritor<\/em>, ele n\u00e3o sabe do que ocorre nas pris\u00f5es, ou onde seja no pa\u00eds, no interior do pa\u00eds. Realmente, isso eu acho indesculp\u00e1vel. Quanto \u00e0 liberdade de cria\u00e7\u00e3o, essa deve ser total. N\u00e3o vejo nenhuma incompatibilidade, entende, entre o sujeito escrever a mais herm\u00e9tica das novelas, ou dos poemas, e participar ativamente da vida, inclusive do sofrimento do pa\u00eds. Pelo amor de Deus!\u201d<br><br><strong><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/pesadelo-em-manaus\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">LEIA MAT\u00c9RIA ORIGINAL<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Di\u00e1logo de professor Sergio Neuenschwander, do ICe, \u00e9 destaque em mat\u00e9ria da Revista Piau\u00ed EDUARDO ESCOREL &#8211; PIAU\u00cd Oque aconteceu em Manaus na \u00faltima semana \u00e9 desesperador. 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