{"id":2329,"date":"2021-02-06T10:40:00","date_gmt":"2021-02-06T13:40:00","guid":{"rendered":"http:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/?p=2329"},"modified":"2021-02-11T10:41:28","modified_gmt":"2021-02-11T13:41:28","slug":"efeito-comitiva-distingue-ayahuasca-e-cogumelos-de-outros-psicodelicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/2021\/02\/06\/efeito-comitiva-distingue-ayahuasca-e-cogumelos-de-outros-psicodelicos\/","title":{"rendered":"\u2018Efeito comitiva\u2019 distingue ayahuasca e cogumelos de outros psicod\u00e9licos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/2021\/02\/06\/efeito-comitiva-distingue-ayahuasca-e-cogumelos-de-outros-psicodelicos\/\">MARCELO LEITE &#8211; FOLHA DE S\u00c3O PAULO<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muita gente sabe que o ch\u00e1 ayahuasca se prepara com duas plantas, o arbusto chacrona (<em>Psychotria viridis<\/em>) e o cip\u00f3-mariri ou jagube (<em>Banisteriopsis caapi<\/em>), mas n\u00e3o por que essa mistura \u00e9 importante para seu poder psicod\u00e9lico. Por tr\u00e1s de sua for\u00e7a est\u00e1 o \u201cefeito comitiva\u201d (<em>entourage effect<\/em>), sinergia entre subst\u00e2ncias vegetais que tornam o daime algo \u00fanico entre compostos psicod\u00e9licos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eis a\u00ed um tema quente no panorama da neuroci\u00eancia dos&nbsp;<a href=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/2020\/11\/30\/entenda-o-significado-do-termo-psicodelico-melhor-que-alucinogeno\/\">produtos tamb\u00e9m chamados de \u201centact\u00f3genos\u201d<\/a>. Um exemplo da aten\u00e7\u00e3o que o assunto desperta est\u00e1 no artigo&nbsp;<a href=\"https:\/\/psychedelicreview.com\/is-there-an-entourage-effect-with-ayahuasca-for-treating-depression\/\">\u201cO Papel da Ayahuasca no Efeito Comitiva e Depress\u00e3o\u201d, de Jos\u00e9 Alexandre Salerno, que apareceu em 28 de janeiro na Psychedelic Science Review<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Salerno faz doutorado com Stevens Rehen na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e no Instituto D\u2019Or de Pesquisa e Ensino (Idor). Rehen se destaca na neuroci\u00eancia brasileira pelo uso de organoides cerebrais (\u201cminic\u00e9rebros\u201d constru\u00eddos em laborat\u00f3rio a partir de c\u00e9lulas pluripotentes) para desvendar o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2018\/09\/ayahuasca-impulsiona-ciencia-psicodelica-no-brasil.shtml\">perfil de a\u00e7\u00e3o de psicod\u00e9licos sobre tecidos neurais<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cVejo muitos autores-cientistas escrevendo sobre a ayahuasca e seu potencial terap\u00eautico, mas quase sempre restritos \u00e0s mol\u00e9culas, sem dar muitas satisfa\u00e7\u00f5es ao leitor sobre a complexidade da infus\u00e3o\u201d, diz Salerno, \u201cincluindo todos os aspectos socioculturais que poucos conhecem \u2013o que \u00e9 ir\u00f4nico, j\u00e1 que a ayahuasca foi testada em humanos como a infus\u00e3o completa e natural.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A altera\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia propiciada pela ayahuasca tem sua origem no composto n,n-dimetiltriptamina (DMT). Presente nas folhas da chacrona, a subst\u00e2ncia seria incapaz de ocasionar vis\u00f5es \u2013as \u201cmira\u00e7\u00f5es\u201d de religi\u00f5es ayahuasqueiras como Santo Daime, Uni\u00e3o do Vegetal e Barquinha\u2013 e a dissolu\u00e7\u00e3o do ego caracter\u00edsticas do efeito psicod\u00e9lico ao ser ingerida sozinha, porque seria degradada no trato digestivo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/files\/2021\/02\/chacronafolha.jpg\" alt=\"\"\/><figcaption>Folha de chacrona, Psychotria viridis (Marcelo Leite\/Folhapress)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para chegar ao c\u00e9rebro, a DMT precisa da ajuda da harmina, uma das subst\u00e2ncias do grupo das betacarbolinas presentes no jagube. A harmina inibe a a\u00e7\u00e3o da enzima monoamina-oxidase (MAO) do est\u00f4mago e do f\u00edgado, que sem o componente do cip\u00f3 quebraria a DMT, impedindo sua difus\u00e3o no organismo pela corrente sangu\u00ednea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa parceria produtiva entre harmina e DMT \u00e9 a base do que se convencionou designar como \u201cefeito comitiva\u201d, o&nbsp;<em>entourage effect<\/em>&nbsp;da express\u00e3o franco-anglo-sax\u00f4nica (a harmina e demais betacarbolinas fazem mais, entretanto, como se ver\u00e1 adiante). A&nbsp;<a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/9721036\/\">locu\u00e7\u00e3o nasceu em 1998<\/a>&nbsp;para designar outro casamento feliz, desta vez entre componentes da maconha em sua intera\u00e7\u00e3o com os receptores \u201cprom\u00edscuos\u201d para canabinoides no c\u00e9rebro, na express\u00e3o do pioneiro em pesquisa com c\u00e2nabis Raphael Mechoulam, do Instituto Weizman.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/files\/2020\/12\/MaconhaFlorDaniloVerpaFev2020.jpg\" alt=\"\"\/><figcaption>Planta\u00e7\u00e3o de maconha em clube de cultivo perto de Montevid\u00e9u, Uruguai (Danilo Verpa\/Folhapress)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira vez em que ouvi fala de efeito comitiva foi em&nbsp;<a href=\"https:\/\/youtu.be\/lpPBB3o8krA\">palestra do neurocientista Sidarta Ribeiro na confer\u00eancia&nbsp;<em>Psychedelic Science<\/em>&nbsp;de 2017<\/a>, em Oakland (Calif\u00f3rnia). O pesquisador do Instituto do C\u00e9rebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (ICe-UFRN) fez uma defesa ao mesmo tempo racional e apaixonada de produtos naturais, como variedades de marijuana com maiores ou menores teores relativos de canabidiol (CBD) e tetrahidrocanabinol (THC) e a pr\u00f3pria ayahuasca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quase quatro anos atr\u00e1s, ao responder uma quest\u00e3o da plateia em Oakland, Ribeiro disse desconhecer se o efeito comitiva tamb\u00e9m caracterizava um psicod\u00e9lico natural muito popular, os cogumelos ditos \u201cm\u00e1gicos\u201d do g\u00eanero&nbsp;<em>Psilocybe<\/em>. Depois disso, explica agora,&nbsp;<a href=\"https:\/\/psychedelicreview.com\/the-entourage-effect-in-magic-mushrooms\/\">artigo de Barbara Bauer na mesma PSR descreveu a intera\u00e7\u00e3o entre psilocibina e aeruginascina<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/files\/2020\/10\/Psilocybe-cubensis.jpg\" alt=\"\"\/><figcaption>Cogumelos da esp\u00e9cie Psilocybe cubensis, que cont\u00e9m a subst\u00e2ncia psicod\u00e9lica psilocibina (Divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c\u00c0 medida que a gente come\u00e7a a entender melhor essas subst\u00e2ncias e essas intera\u00e7\u00f5es, a tend\u00eancia \u00e9 crescer essa l\u00f3gica\u201d, diz Ribeiro. \u201cO conceito mais geral \u00e9 que, quando se usa uma prepara\u00e7\u00e3o com muitos an\u00e1logos de uma mesma mol\u00e9cula-base, um padr\u00e3o como no caso da serotonina, se alcance esse efeito de um ataque complexo a esse receptor, de maneira que ele nunca caminhe para a toler\u00e2ncia e para sua pr\u00f3pria diminui\u00e7\u00e3o. Parece que isso come\u00e7a a emergir como um princ\u00edpio amplo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na maconha e nos cogumelos, a comitiva de mol\u00e9culas se apresenta naturalmente, mas n\u00e3o na ayahuasca, uma inven\u00e7\u00e3o humana. Nunca ser\u00e1 poss\u00edvel saber de que povo nem quando surgiu a t\u00e9cnica de ferver os dois vegetais, mas a pesquisa vem demonstrando que os efeitos neurol\u00f3gicos da infus\u00e3o parecem ir muito al\u00e9m da sinergia entre betacarbolinas e DMT que propicia a altera\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia e engendra as mira\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No centro das aten\u00e7\u00f5es est\u00e1 a harmina. O grupo de Rehen na UFRJ e no Idor mostrou, com ajuda de organoides, ter ela mesma rela\u00e7\u00e3o estreita com o fen\u00f4meno da neuroplasticidade que se postula estar por tr\u00e1s do&nbsp;<a href=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/2020\/11\/12\/estudos-atestam-beneficio-de-psilocibina-ayahuasca-e-lsd-para-deprimidos\/\">potencial antidepressivo do daime<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro estudo de pesquisadores brasileiros e australianos, com Nicole Galv\u00e3o-Coelho \u00e0 frente, mostrou que os&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2020\/07\/ayahuasca-reforca-elo-entre-depressao-e-inflamacao.shtml\">compostos presentes na ayahuasca tamb\u00e9m t\u00eam efeito anti-inflamat\u00f3rio<\/a>, prov\u00e1vel componente da depress\u00e3o resistente a medicamentos. Seu grupo na UFRN mediu o n\u00edvel da prote\u00edna C-reativa no sangue de pacientes que tomaram ayahuasca e verificou que eles tinham n\u00edveis diminu\u00eddos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/files\/2021\/02\/CReactiveProtein.jpg\" alt=\"\"\/><figcaption>Prote\u00edna C-reativa, marcador de inflama\u00e7\u00e3o que tem baixa quantidade em quem toma ayahuasca<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA subst\u00e2ncia harmina \u00e9 mais estudada na literatura cient\u00edfica do que a pr\u00f3pria DMT, o psicod\u00e9lico da infus\u00e3o\u201d, diz Salerno. \u201cSem querer roubar o protagonismo do psicod\u00e9lico, acho importante a reflex\u00e3o cient\u00edfica de que provavelmente a mistura complexa da ayahuasca vai muito al\u00e9m do que j\u00e1 conseguimos responder at\u00e9 hoje sob o rigor do m\u00e9todo cient\u00edfico.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O aluno de Rehen pondera que a ayahuasca j\u00e1 \u00e9 considerada eficaz h\u00e1 milhares de anos por povos nativos. \u201cTalvez falte di\u00e1logo da ci\u00eancia biom\u00e9dica com as sociais para que as raz\u00f5es dessa efic\u00e1cia possam eventualmente ser respondidas pela ci\u00eancia biom\u00e9dica tamb\u00e9m.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cCompostos isolados, e at\u00e9 os sint\u00e9ticos, oferecem a grande vantagem do controle mais rigoroso, especialmente de qualidade, e tornam a proposta de terapia assistida com psicod\u00e9licos bem mais atrativa e comercializ\u00e1vel pelas gigantes farmac\u00eauticas. Mas talvez estejamos deixando escapar vari\u00e1veis importantes ao considerar os compostos isolados.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A defesa das comitivas naturais parece mais comum entre estudiosos de alteradores de consci\u00eancia que os investigam tamb\u00e9m da perspectiva da fenomenologia, ou seja, com experi\u00eancia pr\u00f3pria. Eles costumam ainda dar reconhecimento a saberes ancestrais que legaram seu uso para a ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No polo oposto da tens\u00e3o que percorre a cena psicod\u00e9lica ficam os psicofarmac\u00f3logos mais reducionistas. Seu feij\u00e3o-com-arroz \u00e9&nbsp;<a href=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/2020\/12\/14\/ibogaina-nao-alucinogena-mantem-potencial-contra-dependencia-quimica\/\">isolar princ\u00edpios ativos e sintetiz\u00e1-los<\/a>, na convic\u00e7\u00e3o de que mol\u00e9culas e receptores espec\u00edficos s\u00e3o individualmente respons\u00e1veis por fen\u00f4menos neurais discretos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algo similar se viu na hist\u00f3ria da gen\u00e9tica, em que o paradigma um gene\/uma fun\u00e7\u00e3o (ou uma caracter\u00edstica) acabou cedendo lugar, por for\u00e7a de observa\u00e7\u00f5es emp\u00edricas, para uma vis\u00e3o mais complexa. Hoje se buscam mais associa\u00e7\u00f5es entre genes espalhados pelo genoma inteiro, partindo do princ\u00edpio de que fen\u00f3tipos resultam da intera\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios genes entre si e com fatores ambientais e do organismo, como as marcas epigen\u00e9ticas agregadas ao genoma no curso da vida.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/files\/2020\/11\/MulherArvorePixabayStefanKeller.jpg\" alt=\"\"\/><figcaption>Ilustra\u00e7\u00e3o de Stefan Keller (Pixabay)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe at\u00e9 quem acredite que&nbsp;<a href=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/2020\/11\/23\/suicos-questionam-papel-terapeutico-de-alucinacoes-e-dissolucao-do-ego\/\">o efeito psicod\u00e9lico propriamente dito \u2013vis\u00f5es, dissolu\u00e7\u00e3o do ego, sinestesia etc. \u2013possa ser dispens\u00e1vel<\/a>&nbsp;A psiquiatria poderia assim lan\u00e7ar m\u00e3o do poder reparador dessas subst\u00e2ncias expurgado da altera\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m estudos indicando que o&nbsp;<a href=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/2020\/11\/16\/ciencia-psicodelica-se-afasta-do-misticismo-sem-perder-a-ternura\/\">benef\u00edcio terap\u00eautico \u00e9 proporcional a intensidade da experi\u00eancia m\u00edstica<\/a>&nbsp;(outros diriam: do grau de dissolu\u00e7\u00e3o do ego).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em resumo, haveria um outro efeito comitiva, por assim dizer, nos psicod\u00e9licos em geral: n\u00e3o se vence a rumina\u00e7\u00e3o sem uma dose de dissocia\u00e7\u00e3o, ou, como diz Robin Carhart-Harris, sem um aumento de entropia no c\u00e9rebro. A ci\u00eancia psicod\u00e9lica precisa de mais jogo de cintura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARCELO LEITE &#8211; FOLHA DE S\u00c3O PAULO Muita gente sabe que o ch\u00e1 ayahuasca se prepara com duas plantas, o arbusto chacrona (Psychotria viridis) e o cip\u00f3-mariri ou jagube (Banisteriopsis caapi), mas n\u00e3o por que essa mistura \u00e9 importante para seu poder psicod\u00e9lico. 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