{"id":2288,"date":"2020-12-17T14:00:00","date_gmt":"2020-12-17T17:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/?p=2288"},"modified":"2020-12-18T15:21:54","modified_gmt":"2020-12-18T18:21:54","slug":"analise-de-fala-psicodelica-desfaz-parentesco-de-lsd-com-esquizofrenia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/2020\/12\/17\/analise-de-fala-psicodelica-desfaz-parentesco-de-lsd-com-esquizofrenia\/","title":{"rendered":"An\u00e1lise de fala psicod\u00e9lica desfaz parentesco de LSD com esquizofrenia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/2020\/12\/17\/analise-de-fala-psicodelica-desfaz-parentesco-de-lsd-com-esquizofrenia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">MARCELO LEITE &#8211; FOLHA DE S\u00c3O PAULO<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma velha discuss\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o de viagens psicod\u00e9licas com psicoses ganhou novas luzes com a an\u00e1lise automatizada do que psiconautas falam depois de tomar LSD. A concep\u00e7\u00e3o \u201cpsicotomim\u00e9tica\u201d dizia que o efeito da subst\u00e2ncia imitava sintomas psic\u00f3ticos, mais especificamente da esquizofrenia, mas n\u00e3o foi bem isso que se encontrou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse paradigma dos anos 1950-60, que associava psicodelia com patologia, est\u00e1 hoje ultrapassado. Uma das raz\u00f5es para isso est\u00e1 no fato de v\u00e1rios estudos realizados j\u00e1 neste s\u00e9culo apontarem que&nbsp;<a href=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/2020\/11\/12\/estudos-atestam-beneficio-de-psilocibina-ayahuasca-e-lsd-para-deprimidos\/\">psicod\u00e9licos cl\u00e1ssicos (LSD, DMT, psilocibina), apesar das alucina\u00e7\u00f5es e dos visuais que desencadeiam, podem ter benef\u00edcios terap\u00eauticos<\/a>&nbsp;para v\u00e1rios transtornos mentais, como depress\u00e3o e depend\u00eancia qu\u00edmica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje em dia se fala mais em aumento de entropia nas redes cerebrais, uma esp\u00e9cie de chacoalh\u00e3o psicod\u00e9lico aparentemente capaz de destravar e rearranjar pensamentos r\u00edgidos e ideias fixas, como se fossem as part\u00edculas de um globo de neve sacudido. O modelo te\u00f3rico do \u201cc\u00e9rebro entr\u00f3pico\u201d \u00e9 obra do brit\u00e2nico Robin Carhart-Harris, um dos autores do&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S1053810020305377\">estudo publicado na revista Consciousness and Cognition.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O&nbsp;<a href=\"http:\/\/doi:%2010.1016\/j.concog.2020.103070\">artigo<\/a>&nbsp;reuniu pesquisadores da Argentina, Brasil e Reino Unido, sob a batuta do f\u00edsico Enzo Tagliazucchi, da Universidade de Buenos Aires. Pelo Brasil entraram a psiquiatra Nat\u00e1lia Mota e o neurocientista Sidarta Ribeiro, do Instituto do C\u00e9rebro da UFRN, e o f\u00edsico Mauro Copelli, da UFPE.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pesquisadores sul-americanos cooperaram, neste caso, com um dos grupos mais avan\u00e7ados no renascimento desse campo, o Centro para Pesquisa Psicod\u00e9lica do Imperial College de Londres. L\u00e1 se realizou a parte experimental do estudo, no grupo de Carhart-Harris e seu mentor, David Nutt.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O t\u00edtulo combina bem com o inusitado da experi\u00eancia e das conclus\u00f5es \u2014&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S1053810020305377\">\u201cA L\u00edngua Entr\u00f3pica: Desorganiza\u00e7\u00e3o da Linguagem Natural sob LSD\u201d<\/a>. Duas dezenas de psiconautas experimentados tomaram inje\u00e7\u00f5es intravenosas contendo 75 microgramas de LSD ou de soro fisiol\u00f3gico (placebo), em duas visitas ao centro separadas por duas semanas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No momento que corresponderia ao auge da viagem para quem tomou LSD, 120 a 150 minutos depois da ingest\u00e3o, ficaram por 60 minutos dentro de uma m\u00e1quina de resson\u00e2ncia magn\u00e9tica funcional para obter imagens da atividade cerebral. Passados 40 minutos, entraram noutra m\u00e1quina, de magnetoencefalografia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o verdadeiros her\u00f3is, pois ningu\u00e9m merece viajar nesse confinamento. Logo que deixavam cada um dos aparelhos, pesquisadores os entrevistavam sobre o que estavam sentido. N\u00e3o espanta que tenham gravado respostas deste teor:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cFoi engra\u00e7ado, porque sem a m\u00fasica os\u2026 os\u2026 os sons do scanner apenas permitiam que voc\u00ea meio que derivasse com os\u2026 com os sons do scanner, mas, com a m\u00fasica e os\u2026 os sons do scanner, era quase que mais dif\u00edcil.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas esse foi s\u00f3 o ponto de partida para o estudo de Tagliazucchi &amp; cia. O grupo se debru\u00e7ou ent\u00e3o sobre esses fragmentos de discurso e os retalhou ainda mais, para que pudessem ser tratados, analisados e quantificados de modo autom\u00e1tico por computadores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conectivos foram deletados, assim como palavras com duas letras ou menos em ingl\u00eas, por raz\u00f5es detalhadas no artigo original (tudo muito complicado para enumerar aqui). Resultaram s\u00e9ries de palavras como esta: \u201cengra\u00e7ado, sem, m\u00fasica, som, scanner, permitir, meio, derivar, sons, scanner, m\u00fasica, sons, scanner, quase, dif\u00edcil\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/files\/2020\/12\/NuvemPalavras.png\" alt=\"\"\/><figcaption>\u00c0 esq., palavras mais usadas sob influ\u00eancia de LSD; \u00e0 dir., as mais frequentes no caso de placebo (Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aplicaram-se dois tipos de an\u00e1lise formal sobre as muitas fieiras de voc\u00e1bulos, sem\u00e2ntica (o significado das palavras \u00e9 relevante) e n\u00e3o sem\u00e2ntica (s\u00f3 importam ordem, repeti\u00e7\u00e3o e arranjo de palavras). A segunda modalidade \u00e9 a que interessa aqui, porque coube ao trio de brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/neuro.ufrn.br\/site\/index.php\/speechgraphs\/\">Mota, Copelli e Ribeiro s\u00e3o pioneiros na an\u00e1lise por grafos<\/a>. Reportagem minha na&nbsp;<strong>Folha<\/strong>&nbsp;sobre a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2020\/11\/estudo-aponta-parentesco-entre-textos-da-antiguidade-e-linguagem-de-criancas-e-loucos.shtml\">aplica\u00e7\u00e3o dessa t\u00e9cnica a v\u00e1rios tipos de discursos<\/a>&nbsp;os descrevia assim: \u201cDiagramas em que cada palavra de um enunciado vai representada com um c\u00edrculo, os n\u00f3s, e estes s\u00e3o interligados por setas, ou arestas, na ordem em que se sucedem no discurso. Quando uma palavra ou express\u00e3o aparece de novo, uma outra flecha a conecta com a primeira ocorr\u00eancia do termo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/files\/2020\/12\/Grafo.png\" alt=\"\"\/><figcaption>Exemplo de grafo, diagrama que representa palavras encadeadas em trecho de fala (Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com base nesse recurso, em trabalhos anteriores o trio mostrou que consegue&nbsp;<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2014\/01\/1399472-diagrama-de-sonhos-ajuda-no-diagnostico-de-psicose.shtml\">separar com 80-90% de precis\u00e3o falas de psic\u00f3ticos e de n\u00e3o psic\u00f3ticos<\/a>. Aplicado aos relatos de psiconautas de Londres, comparados com os da condi\u00e7\u00e3o de placebo e com uma base de enunciados de doentes mentais, despontaram algumas observa\u00e7\u00f5es interessantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira constata\u00e7\u00e3o foi que psiconautas exibem um aumento verborr\u00e1gico, tipo logorreia (j\u00e1 presenciei ocorr\u00eancias extremas disso). Muitas palavras proferidas, mas curiosamente com vocabul\u00e1rio comparativamente reduzido (repeti\u00e7\u00f5es de voc\u00e1bulos \u2013ainda que cobrindo uma gama maior de temas, informa\u00e7\u00e3o vinda da an\u00e1lise sem\u00e2ntica).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cOs achados dialogam com outro&nbsp;<a href=\"http:\/\/doi:%2010.1016\/j.tine.2020.100142\">estudo recente de nosso grupo<\/a>, que mostrou semelhan\u00e7a estrutural de textos da Idade do Bronze na Mesopot\u00e2mia e no Egito com o discurso de pessoas em estado psic\u00f3tico\u201d, comenta Sidarta Ribeiro, da UFRN. \u201cAinda que mais estudos precisem ser feitos para aprofundar essa quest\u00e3o, hoje \u00e9 plaus\u00edvel considerar que as lideran\u00e7as letradas da Antiguidade mais remota tivessem o \u00edmpeto criativo de pessoas que hoje s\u00e3o diagnosticadas com o transtorno bipolar em fase man\u00edaca\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/files\/2020\/12\/GrafoLSDxPlaceboMesmoSujeito.png\" alt=\"\"\/><figcaption>Dois grafos de falas do mesmo participante no estudo, sob efeito de LSD, \u00e0 esq., e sob placebo, \u00e0 dir. (Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tudo somado, os autores concluem da an\u00e1lise formal desses relatos durante efeito psicod\u00e9lico que h\u00e1, sim, algum parentesco com discursos psic\u00f3ticos, mas n\u00e3o da variedade esquizofr\u00eanica, e sim com componentes man\u00edacos, como no transtorno bipolar, mas tamb\u00e9m com os controles normais do experimento. Aumenta a entropia da fala (desorganiza\u00e7\u00e3o), \u00e9 fato, mas n\u00e3o a ponto de dar sustenta\u00e7\u00e3o ao paradigma psicotomim\u00e9tico<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cNossas an\u00e1lises ressaltam que simplesmente atribuir uma propriedade \u2018psicotomim\u00e9tica\u2019 a psicod\u00e9licos seroton\u00e9rgicos carece de especificidade e que an\u00e1lises computacionais da linguagem natural apropriadamente aplicadas guardam o potencial para fornecer tal especificidade\u201d, concluem Talgiazucchi &amp; cia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/files\/2020\/12\/GraficoLSDxEsquizoXbipolar.png\" alt=\"\"\/><figcaption>Gr\u00e1fico compara n\u00edvel de desorganiza\u00e7\u00e3o de discurso em casos de esquizofrenia, transtorno bipolar e ingest\u00e3o de LSD (Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cGrafos de fala caracterizam como a pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea de discurso pode ser perturbada&nbsp;<em>sob<\/em>&nbsp;os efeitos de LSD, ou&nbsp;<em>durante<\/em>&nbsp;epis\u00f3dios de doen\u00e7a mental. Tais dados em tempo real possivelmente fornecem um reflexo mais v\u00e1lido e mais interessante da a\u00e7\u00e3o de uma droga sobre mecanismos da linguagem do que relatos retrospectivos \u2013embora os \u00faltimos sejam mais f\u00e1ceis de coletar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ponto para a neuroci\u00eancia brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/2020\/12\/17\/analise-de-fala-psicodelica-desfaz-parentesco-de-lsd-com-esquizofrenia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">VEJA NOT\u00cdCIA ORIGINAL AQUI<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARCELO LEITE &#8211; FOLHA DE S\u00c3O PAULO Uma velha discuss\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o de viagens psicod\u00e9licas com psicoses ganhou novas luzes com a an\u00e1lise automatizada do que psiconautas falam depois de tomar LSD. 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