{"id":2284,"date":"2020-12-15T11:36:50","date_gmt":"2020-12-15T14:36:50","guid":{"rendered":"http:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/?p=2284"},"modified":"2020-12-15T11:36:59","modified_gmt":"2020-12-15T14:36:59","slug":"sal-e-pimenta-em-vez-de-cata-ventos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/2020\/12\/15\/sal-e-pimenta-em-vez-de-cata-ventos\/","title":{"rendered":"\u201cSal e pimenta\u201d em vez de \u201ccata-ventos\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todos os roedores investigados at\u00e9 agora possuem neur\u00f4nios seletivos para contornos orientados no c\u00f3rtex visual prim\u00e1rio, mas nenhuma evid\u00eancia de mapas peri\u00f3dicos com estruturas semelhantes a \u201ccata-ventos\u201d, em contraste com carn\u00edvoros e primatas. \u201cCata-ventos\u201d s\u00e3o assinaturas bem conhecidas de uma organiza\u00e7\u00e3o cortical desses neur\u00f4nios seletivos. Eles se desenvolveram durante a evolu\u00e7\u00e3o v\u00e1rias vezes e independentemente em diferentes continentes. Apesar de alguns roedores enxergarem muito bem, todas as esp\u00e9cies investigadas at\u00e9 agora mostram um arranjo dos seus neur\u00f4nios que n\u00e3o \u00e9 peri\u00f3dico \u2013 e sem os cata-ventos \u2013 denominado \u201csal e pimenta\u201d, por misturar neur\u00f4nios de diferentes prefer\u00eancias em \u00e1rea pequena.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse fato estimulou muitos grupos de f\u00edsicos te\u00f3ricos a debaterem sobre os fatores que determinam e restringem a forma\u00e7\u00e3o do mapa de \u201ccata-ventos\u201d durante a evolu\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento p\u00f3s-natal. Esses estudos apontaram para o tamanho do c\u00f3rtex visual como uma restri\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, j\u00e1 que os roedores investigados at\u00e9 agora t\u00eam, em sua maioria, um c\u00e9rebro pequeno, a exemplo de ratos ou camundongos.&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.cell.com\/iscience\/fulltext\/S2589-0042(20)31079-8?_returnURL=https%3A%2F%2Flinkinghub.elsevier.com%2Fretrieve%2Fpii%2FS2589004220310798%3Fshowall%3Dtrue\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Estudo desenvolvido no Instituto do C\u00e9rebro (ICe)<\/a>&nbsp;da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), no entanto, examinou a organiza\u00e7\u00e3o funcional dos neur\u00f4nios seletivos para orienta\u00e7\u00e3o dentro do c\u00f3rtex visual da cutia (<em>Dasyprocta leporina<\/em>), um grande roedor sul-americano e uma esp\u00e9cie ainda pouco investigada.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\" id=\"attachment_42989\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/wp.info.ufrn.br\/admin\/portal-ufrn\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2020\/12\/IX-SEMANA-NACIONAL-DO-C%C3%89REBRO-1024x447.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-42989\"\/><figcaption>Imagens mostram diferen\u00e7a entre mapa cortical tipo \u201ccata-ventos\u201d (\u00e0 esquerda) e mapa cortical tipo \u201cSal e pimenta\u201d<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cutia chamou aten\u00e7\u00e3o nessa discuss\u00e3o por ser um roedor diurno e altamente visual e por possuir o maior c\u00f3rtex visual prim\u00e1rio (320-340 mm2) investigado nessa ordem at\u00e9 o momento (maior seria s\u00f3 a capivara). Vale ressaltar que a \u00e1rea visual prim\u00e1ria desse roedor \u00e9 10 vezes maior do que a dos esquilos cinzentos previamente investigados e, assim, compar\u00e1vel \u00e0 dos gatos. Isso coloca as cutias em um quadro mais amplo dentro da discuss\u00e3o dos fatores que impulsionam a forma\u00e7\u00e3o do mapa cortical visual, uma vez que dois trabalhos te\u00f3ricos a prop\u00f5em como o \u201celo perdido\u201d sobre a evolu\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento de mapas corticais, prevendo um&nbsp;<em>layout&nbsp;<\/em>com \u201ccata-ventos\u201d devido ao seu tamanho de c\u00f3rtex visual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para investigar esse&nbsp;<em>layout<\/em>, foram usadas imagens de sinal intr\u00ednseco e t\u00e9cnicos eletrofisiol\u00f3gicos. Nos estudos, os pesquisadores da UFRN conseguiram demonstrar e quantificar, pela primeira vez, que a cutia tem neur\u00f4nios altamente seletivos a contornos orientados e \u00e0 dire\u00e7\u00e3o de movimento. Inesperadamente \u2013 e contr\u00e1rios \u00e0 proposta te\u00f3rica de que mapas peri\u00f3dicas se desenvolvem para economizar conex\u00f5es corticais quando o c\u00e9rebro alcan\u00e7a um certo tamanho \u2013, os resultados de imageamento mostram uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o peri\u00f3dica e uma falta de estruturas semelhantes a cata-ventos nesta esp\u00e9cie de roedor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, os pesquisadores descobriram uma microestrutura dentro da organiza\u00e7\u00e3o \u201csal e pimenta\u201d que foi observada antes em camundongos, conforme expresso por um agrupamento espacial de c\u00e9lulas iso-orientados a muito curta dist\u00e2ncia, tipo \u201csal grosso\u201d. Na base do estudo da UFRN, pode-se concluir que a estrutura funcional do c\u00f3rtex visual em roedores depende de restri\u00e7\u00f5es filogen\u00e9ticas, em vez de regras de organiza\u00e7\u00e3o universais que tinham previsto \u201ccata-ventos\u201d na cutia por causa do tamanho do seu c\u00e9rebro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses resultados s\u00e3o relevantes n\u00e3o apenas para a comunidade cient\u00edfica no campo da neuroci\u00eancia visual experimental e te\u00f3rica, mas tamb\u00e9m para pesquisadores que investigam a estrutura e a evolu\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro. J\u00e1 que o c\u00f3rtex visual n\u00e3o pode ser visto isolado, mas sim como um exemplo de estrutura cortical em geral, os resultados abrem tamb\u00e9m perguntas sobre poss\u00edveis diferen\u00e7as sistem\u00e1ticas entre c\u00e9rebros de roedores e primatas que devem ser considerados quando se pensa na interpreta\u00e7\u00e3o de observa\u00e7\u00f5es feitos em modelos roedores para doen\u00e7as neurol\u00f3gicas ou psiqui\u00e1tricas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\" id=\"attachment_42932\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/wp.info.ufrn.br\/admin\/portal-ufrn\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2020\/12\/Pequena-0673-1024x678.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-42932\"\/><figcaption>A cutia possui o maior c\u00f3rtex visual prim\u00e1rio investigado nessa ordem at\u00e9 o momento \u2013 Foto: Moacir F. de Oliveira \u2013 UFERSA<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho foi executado integralmente no ICe\/UFRN, em Natal, no Laborat\u00f3rio de Neurobiologia da Vis\u00e3o, coordenado pela neurocientista Kerstin Schmidt, com suporte da Universidade Federal Rural do Semi-\u00c1rido (Ufersa),&nbsp;<em>campus<\/em>&nbsp;Mossor\u00f3. O equipamento foi doado pelo Instituto Max Planck de Pesquisa do C\u00e9rebro, de Frankfurt, Alemanha. Os autores do estudo s\u00e3o Dardo N. Ferreiro, Sergio A. Conde-Ocazionez, Jo\u00e3o H. N. Patriota, Lu\u00e1 C.dos Santos, Moacir F. De Oliveira, Fred Wolf e a pr\u00f3pria Kerstin.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leia estudo na \u00edntegra&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.cell.com\/iscience\/fulltext\/S2589-0042(20)31079-8?_returnURL=https%3A%2F%2Flinkinghub.elsevier.com%2Fretrieve%2Fpii%2FS2589004220310798%3Fshowall%3Dtrue\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">AQUI<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos os roedores investigados at\u00e9 agora possuem neur\u00f4nios seletivos para contornos orientados no c\u00f3rtex visual prim\u00e1rio, mas nenhuma evid\u00eancia de mapas peri\u00f3dicos com estruturas semelhantes a \u201ccata-ventos\u201d, em contraste com carn\u00edvoros e primatas. \u201cCata-ventos\u201d s\u00e3o assinaturas bem conhecidas de uma organiza\u00e7\u00e3o cortical desses neur\u00f4nios seletivos. Eles se desenvolveram durante a evolu\u00e7\u00e3o v\u00e1rias vezes e independentemente em diferentes continentes. 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