{"id":2281,"date":"2020-12-07T11:11:00","date_gmt":"2020-12-07T14:11:00","guid":{"rendered":"http:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/?p=2281"},"modified":"2020-12-09T11:15:52","modified_gmt":"2020-12-09T14:15:52","slug":"ilusoes-psicodelicas-nao-sao-patologicas-e-podem-ate-fazer-enxergar-melhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/2020\/12\/07\/ilusoes-psicodelicas-nao-sao-patologicas-e-podem-ate-fazer-enxergar-melhor\/","title":{"rendered":"Ilus\u00f5es psicod\u00e9licas n\u00e3o s\u00e3o patol\u00f3gicas e podem at\u00e9 fazer enxergar melhor"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/2020\/12\/07\/ilusoes-psicodelicas-nao-sao-patologicas-e-podem-ate-fazer-enxergar-melhor\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">MARCELO LEITE &#8211; FOLHA DE S\u00c3O PAULO<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aborrecido com a conversa intermin\u00e1vel, um homem de seus 60 anos deixa o grupo, caminha poucos metros pelo caminho de terra e para debaixo de uma \u00e1rvore. Faz tr\u00eas horas que tomou cerca de 150 microgramas de LSD \u2013uma dose cheia, mas n\u00e3o heroica, do psicod\u00e9lico. Seu olhar \u00e9 atra\u00eddo para cima, e ele duvida do que v\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00e1rvore est\u00e1 viva, viva demais. Claro, toda \u00e1rvore vive, diz para si pr\u00f3prio, mas \u00e9 mais que isso. N\u00e3o h\u00e1 vento. Uma se\u00e7\u00e3o do tronco se move de forma lenta e l\u00e2nguida, como uma serpente enorme. A casca da madeira tem padr\u00f5es geom\u00e9tricos de amarelo, marrom e verde. Sabe que \u00e9 uma ilus\u00e3o, e se alegra com a chance de ver a \u00e1rvore como se fosse a primeira vez que v\u00ea uma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Passam alguns segundos de embevecimento confuso. A serpente vegetal ganha aos poucos os contornos de uma mulher. Os desenhos geom\u00e9tricos coalescem como estampa de sua blusa. A realidade real se imp\u00f5e de modo brutal na vis\u00e3o de uma bermuda jeans. O momento m\u00e1gico se desfaz: ele est\u00e1, de fato, diante de uma mo\u00e7a que subiu na \u00e1rvore, uma das companheiras de viagem no s\u00edtio da Grande S\u00e3o Paulo. Ri \u2013de si mesmo, da convic\u00e7\u00e3o poderosa e fugaz propiciada pela vis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que s\u00e3o essas vis\u00f5es mediadas por psicod\u00e9licos, afinal? Quais mecanismos ps\u00edquicos lhes d\u00e3o origem? No que elas diferem ou se aproximam das&nbsp;<a href=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/2020\/11\/23\/suicos-questionam-papel-terapeutico-de-alucinacoes-e-dissolucao-do-ego\/\">alucina\u00e7\u00f5es produzidas n\u00e3o por drogas<\/a>, mas por transtornos psiqui\u00e1tricos como os do espectro da esquizofrenia ou por dist\u00farbios neurol\u00f3gicos como certas formas de dem\u00eancia? Como podem os psicod\u00e9licos carregar&nbsp;<a href=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/2020\/11\/12\/estudos-atestam-beneficio-de-psilocibina-ayahuasca-e-lsd-para-deprimidos\/\">potencial terap\u00eautico, por exemplo para tratar depress\u00e3o<\/a>, se seu efeito reproduz sintomas similares aos de graves patologias?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A neuroci\u00eancia ainda n\u00e3o tem repostas completas para essas quest\u00f5es, ainda que venha dando passos decididos nessa dire\u00e7\u00e3o. O Cons\u00f3rcio Internacional para Pesquisa de Alucina\u00e7\u00f5es (ICHR, na sigla em ingl\u00eas) mapeou o que se sabe sobre a mat\u00e9ria em v\u00e1rios n\u00edveis, da farmacologia \u00e0s imagens funcionais do c\u00e9rebro e das \u00e1reas envolvidas, passando pela fenomenologia, isto \u00e9, os relatos de experi\u00eancias vividas por pessoas que t\u00eam vis\u00f5es ou alucinam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o seria o caso, aqui, de entrar nos detalhes do artigo publicado, no peri\u00f3dico Schizophrenia Bulletin, por Pantelis Leptourgos e uma penca de colaboradores, com o t\u00edtulo&nbsp;<a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/schizophreniabulletin\/article\/46\/6\/1396\/5908041\">\u201cAlucina\u00e7\u00f5es sob psicod\u00e9licos e no espectro da esquizofrenia: Uma compara\u00e7\u00e3o interdisciplinar e multiescalar\u201d<\/a>. O leitor ter\u00e1 de se contentar com um resumo muito superficial e imperfeito, mas fica a recomenda\u00e7\u00e3o para enfrentar o estudo original (em ingl\u00eas).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira semelhan\u00e7a descrita entre os dois tipos de alucina\u00e7\u00e3o, o psicod\u00e9lico e o psiqui\u00e1trico, est\u00e1 uma redu\u00e7\u00e3o na integridade e na estabilidade de redes funcionais do c\u00e9rebro. Ou seja, uma esp\u00e9cie de relaxamento nos padr\u00f5es de disparos simult\u00e2neos de neur\u00f4nios em diferentes \u00e1reas cerebrais quando a pessoa se encontra em determinados estados (sono, vig\u00edlia, aten\u00e7\u00e3o, introspec\u00e7\u00e3o etc.).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma rede importante aqui, da qual muito se ouvir\u00e1 falar neste blog, \u00e9 a rede de modo padr\u00e3o (mais conhecida como DMN, na sigla em ingl\u00eas). Ligada \u00e0 introspec\u00e7\u00e3o, ela normalmente s\u00f3 fica ativa quando silenciam outras redes mobilizadas na realiza\u00e7\u00e3o de tarefas, com aten\u00e7\u00e3o voltada para o exterior \u2013\u00e9 o que se chama de anticorrela\u00e7\u00e3o, ou ortogonalidade, um funcionamento mais ou menos excludente que tamb\u00e9m se enfraquece durante a emerg\u00eancia de alucina\u00e7\u00f5es na esquizofrenia e com o uso de alguns psicod\u00e9licos, como a esquizofrenia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra similaridade apontada no artigo \u00e9 a atribui\u00e7\u00e3o \u00e0s vis\u00f5es do que os autores denominam como forte sentido metaf\u00edsico. As vozes ouvidas pelo esquizofr\u00eanico s\u00e3o percebidas por ele como vozes reais, n\u00e3o fabrica\u00e7\u00f5es suas. O tronco coberto de desenhos geom\u00e9tricos que se contorce lentamente aparece na viagem psicod\u00e9lica como revela\u00e7\u00e3o da verdadeira ess\u00eancia viva e feminina do vegetal, embora n\u00e3o passe de uma mulher que trepou na \u00e1rvore.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 algumas diferen\u00e7as marcantes, por\u00e9m. Psicod\u00e9licos turbinam disparos principalmente em \u00e1reas de c\u00f3rtex sensorial prim\u00e1rio, enquanto na psicose a superativa\u00e7\u00e3o afeta redes associativas. No primeiro caso, s\u00e3o transit\u00f3rias, desaparecem com interven\u00e7\u00e3o de pensamentos racionais e quando passa o efeito da droga; no segundo, manifestam-se de maneira cr\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O&nbsp;<a href=\"https:\/\/repositorio.ufrn.br\/bitstream\/123456789\/23128\/1\/Seeing%20With%20the%20Eyes%20Shut.pdf\">primeiro estudo a evidenciar a ativa\u00e7\u00e3o de c\u00f3rtex visual prim\u00e1rio por um psicod\u00e9lico&nbsp;<\/a>\u2013no caso, ayahuasca\u2013 foi realizado por brasileiros e publicado em 2012, no peri\u00f3dico Human Brain Mapping, pelo grupo de Dr\u00e1ulio de Ara\u00fajo no Instituto do C\u00e9rebro da UFRN. O artigo de Leptourgos, incrivelmente, n\u00e3o cita o trabalho pioneiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alucina\u00e7\u00f5es e ilus\u00f5es psicod\u00e9licas s\u00e3o predominantemente visuais, em geral geom\u00e9tricas, mas sem perda completa do senso de realidade. J\u00e1 as psic\u00f3ticas s\u00e3o comumente auditivas, vozes que o doente n\u00e3o consegue distinguir de vozes reais. Nas duas situa\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, as vis\u00f5es v\u00eam carregadas de intenso significado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leptourgos e colegas consideram alguns modelos te\u00f3ricos que poderiam explicar o funcionamento normal do c\u00e9rebro e o que nele se altera no curso de alucina\u00e7\u00f5es. Para eles, em ambos os casos ocorrem perturba\u00e7\u00f5es do mecanismo computacional identificado como processamento preditivo, vale dizer, das fun\u00e7\u00f5es cerebrais que mobilizam conte\u00fados pr\u00e9vios para interpretar o que chega pelos sentidos e decidir o que fazer ou pensar a respeito. Desfeita a perturba\u00e7\u00e3o, a \u00e1rvore-mulher maravilhosa volta a ser uma simples mulher na \u00e1rvore.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pense no c\u00e9rebro como um filtro. Uma cacofonia de dados sensoriais tem de ser processada para ganhar sentido, na forma de hip\u00f3teses que v\u00e3o sendo testadas com base em tudo que fixou na mem\u00f3ria do que a pessoa viveu e aprendeu, at\u00e9 que ela ou ele conclua algo a respeito (n\u00e3o necessariamente de modo consciente). A trama do filtro que peneira as associa\u00e7\u00f5es se comp\u00f5e das redes de neur\u00f4nios que se habituaram a disparar juntos para gravar o que se viveu e aprendeu de forma significativa.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br\/files\/2020\/12\/CerebroTorneiraSwanson.jpg\" alt=\"\"\/><figcaption>Reprodu\u00e7\u00e3o de Frontiers in Pharmacology\/Neuropharmacology.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro artigo esclarecedor sobre o tema,&nbsp;<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.3389\/fphar.2018.00172\">\u201cUnificando teorias sobre efeitos de drogas psicod\u00e9licas\u201d<\/a>, foi apresentado em 2018 por Link Swanson, da Universidade de Minnesota, na revista Frontiers in Pharmacology\/Neuropharmacology. O modelo do processamento preditivo, mostra Swanson, \u00e9 apenas uma de v\u00e1rias constru\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas fundadas na met\u00e1fora do filtro \u2013uma hist\u00f3ria de mais de um s\u00e9culo de tentativas de explica\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia e suas altera\u00e7\u00f5es que v\u00e3o sendo aperfei\u00e7oadas e abarcam de William James a Henri Bergson e de Sigmund Freud a Aldous Huxley.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.frontiersin.org\/articles\/10.3389\/fnhum.2014.00020\/full\">c\u00e9rebro entr\u00f3pico proposto por Robin Carhart-Harris<\/a>, do Imperial College de Londres, est\u00e1 entre elas. Nessa concep\u00e7\u00e3o, a mente em condi\u00e7\u00f5es normais se encontra num equil\u00edbrio \u00f3timo entre ordem e desordem, com redes como a DMN flex\u00edveis o bastante para permitir adapta\u00e7\u00e3o do sujeito a novas circunst\u00e2ncias e est\u00e1veis o suficiente para manter a unidade do self (ou do ego, como diria Freud).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse tipo de modelo permite tamb\u00e9m ir al\u00e9m do paradoxo na oposi\u00e7\u00e3o entre o terap\u00eautico e o patol\u00f3gico que as altera\u00e7\u00f5es visuais colocam para as subst\u00e2ncias psicod\u00e9licas, que por muito tempo foram chamadas tamb\u00e9m de drogas psicotomim\u00e9ticas, pois induziriam uma imita\u00e7\u00e3o de estados psic\u00f3ticos. Esse paradigma foi abandonado, em grande parte, a partir dos anos 1960, quando as diferen\u00e7as entre a altera\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia nas \u201cviagens\u201d psicod\u00e9licas e o del\u00edrio psic\u00f3tico foram ficando evidentes e as terapias psicod\u00e9licas ganharam espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A explica\u00e7\u00e3o envolvendo a DMN sugere que, em transtornos como a depress\u00e3o, a rede como que entra em parafuso, entregue \u00e0 rigidez e repeti\u00e7\u00e3o de pensamentos negativos, por assim dizer um excesso de ordem que culmina na rumina\u00e7\u00e3o incessante. O potencial terap\u00eautico dos psicod\u00e9licos adviria, ent\u00e3o, justamente de sua capacidade de relaxar a DMN, vale dizer, de reduzir sua integridade e estabilidade (aumentando a entropia), ao mesmo tempo em que arrefece a anticorrela\u00e7\u00e3o dela com redes mais voltadas para execu\u00e7\u00e3o de tarefas e aten\u00e7\u00e3o voltada ao exterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muito simplificadamente, uma atividade cerebral menos balizada pela ordem permitiria a emerg\u00eancia ou constru\u00e7\u00e3o de novos percursos mentais. Caminhos alternativos, lampejos incomuns, hip\u00f3teses mais ousadas que n\u00e3o s\u00e3o descartadas de pronto como irrelevantes, deixando assim de sucumbir ao filtro implac\u00e1vel das mem\u00f3rias marcadas a ferro e fogo na psique, n\u00e3o raro por traumas incandescentes. Abrem-se frestas por entre as quais, como nas alucina\u00e7\u00f5es lis\u00e9rgicas, interpreta\u00e7\u00f5es impens\u00e1veis podem aparecer banhadas na luz da realidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma mulher na \u00e1rvore, e \u00e9 verdade. A mente capaz de entender que h\u00e1 mais de um sentido nessa afirma\u00e7\u00e3o e de discernir o que \u00e9 emocionante do que \u00e9 apenas real e, mais, que n\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria entre uma coisa e outra \u2013eis a mente de uma pessoa com mais chance de ser menos infeliz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"Folha de S\u00e3o Paulo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Fonte: Folha de S\u00e3o Paulo<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARCELO LEITE &#8211; FOLHA DE S\u00c3O PAULO Aborrecido com a conversa intermin\u00e1vel, um homem de seus 60 anos deixa o grupo, caminha poucos metros pelo caminho de terra e para debaixo de uma \u00e1rvore. Faz tr\u00eas horas que tomou cerca de 150 microgramas de LSD \u2013uma dose cheia, mas n\u00e3o heroica, do psicod\u00e9lico. 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