{"id":2176,"date":"2020-11-17T11:19:30","date_gmt":"2020-11-17T14:19:30","guid":{"rendered":"http:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/?p=2176"},"modified":"2020-11-17T11:20:08","modified_gmt":"2020-11-17T14:20:08","slug":"escrita-e-evolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/2020\/11\/17\/escrita-e-evolucao\/","title":{"rendered":"Escrita e evolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Estudo confirma que educa\u00e7\u00e3o est\u00e1 ligada ao amadurecimento cognitivo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em><strong>Jos\u00e9 de Paiva Rebou\u00e7as e Marcelha Pereira \u2013 Agecom\/Sala de Ci\u00eancia&nbsp;<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A educa\u00e7\u00e3o e o avan\u00e7o da tecnologia fazem as crian\u00e7as de hoje parecerem g\u00eanios se comparadas a pessoas de s\u00e9culos atr\u00e1s.&nbsp; Isso, no entanto, n\u00e3o aconteceu da noite para o dia e nem pode ser considerado um fen\u00f4meno recente. Estudo rec\u00e9m publicado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) mostra que, do ponto de vista estrutural, o que leva em m\u00e9dia 12 anos para ser aprendido atualmente por crian\u00e7as t\u00edpicas, demorou 2,5 mil anos para se consolidar como ac\u00famulo cultural da humanidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Utilizando<a href=\"https:\/\/ufrn.br\/imprensa\/materias-especiais\/40600\/diagnostico-precoce\">&nbsp;an\u00e1lise de grafos<\/a>&nbsp;de textos liter\u00e1rios de um per\u00edodo que abrange cerca 4.5 mil anos de hist\u00f3ria, pesquisadores brasileiros e argentinos confirmaram que a educa\u00e7\u00e3o est\u00e1 intimamente ligada ao amadurecimento cognitivo da forma\u00e7\u00e3o dos pensamentos dos seres humanos h\u00e1 milhares de anos. Esse trabalho foi poss\u00edvel gra\u00e7as ao apoio do N\u00facleo de Processamento de Alto Desempenho (NPAD), o supercomputador UFRN.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pesquisa,<a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S2211949320300181\">&nbsp;publicada na&nbsp;<em>Trends in Neuroscience and Education<\/em><\/a>, \u00e9 continua\u00e7\u00e3o do trabalho do neurocientista Sidarta Ribeiro, vice-diretor do Instituto do C\u00e9rebro (ICe) da UFRN, da psiquiatra Natalia Mota, p\u00f3s-doutoranda do ICe, e M\u00e1rio Copelli, da UFPE, que utilizam um<a href=\"https:\/\/ufrn.br\/imprensa\/materias-especiais\/40600\/diagnostico-precoce\">&nbsp;sistema de grafos para an\u00e1lise da estrutura da fala<\/a>. Com apoio de pesquisadores da Unicamp e da Argentina, eles observaram que os textos da Idade do Bronze (2.500 a 1.000&nbsp;a.C.) s\u00e3o estruturalmente semelhantes aos relatos orais de crian\u00e7as alfabetizadas e de participantes adultos psic\u00f3ticos da atualidade.&nbsp; Isso fica mais pronunciado quando analisado o discurso amer\u00edndio que est\u00e1 ainda mais distante dessa estrutura da literatura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ars.els-cdn.com\/content\/image\/1-s2.0-S2211949320300181-gr1.jpg\" alt=\"figura 1\"\/><figcaption>An\u00e1lise n\u00e3o-sem\u00e2ntica de grafos de palavras de textos de literatura<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, Sidarta Ribeiro, coordenador da equipe de pesquisa, esclarece que os dados n\u00e3o apoiam a ideia de que o discurso oral de culturas amer\u00edndias \u00e9 inferior ao discurso letrado. S\u00e3o trajet\u00f3rias de amadurecimento estrutural distintas e divergentes. \u201cSe na cidade s\u00e3o necess\u00e1rios v\u00e1rios anos de instru\u00e7\u00e3o para aprender a falar com recursividade de longa dist\u00e2ncia, entre os ind\u00edgenas s\u00e3o necess\u00e1rios anos de treinamento para aprender a falar com recursividade de curta dist\u00e2ncia. Isso acontece porque s\u00e3o culturas orais em que as limita\u00e7\u00f5es da mem\u00f3ria favorecem constru\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas repetitivas\u201d, esclarece.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A an\u00e1lise de grafos estuda o discurso como uma trajet\u00f3ria de palavras, construindo uma esp\u00e9cie de modelo matem\u00e1tico da sua estrutura. Em um estudo anterior com an\u00e1lise de grafos, j\u00e1 foi poss\u00edvel encontrar um padr\u00e3o de transi\u00e7\u00e3o durante o per\u00edodo de aprendizado da leitura e escrita de crian\u00e7as. De acordo com Sylvia Pinheiro, que comp\u00f5e com Natalia Mota a dupla de primeiras autoras do trabalho, algo parecido \u00e9 encontrado para a hist\u00f3ria da escrita neste novo estudo. \u201cEnquanto o discurso fica mais conectado e rico em palavras ao longo do tempo, tamb\u00e9m se torna progressivamente menos repetitivo e aleat\u00f3rio. Ent\u00e3o, podemos apontar a passagem da oralidade para a escrita como um importante marco para determinar a forma como nos comunicamos\u201d, confirmou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudo observa tamb\u00e9m que a mentalidade humana s\u00f3 amadureceu em seu modo atual durante a Era Axial (800 a 200 a.C.), per\u00edodo da hist\u00f3ria antiga marcado por um&nbsp;<em>boom&nbsp;<\/em>filos\u00f3fico, religioso, art\u00edstico, pol\u00edtico, jur\u00eddico, econ\u00f4mico e educacional na Afro-Eur\u00e1sia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\" id=\"attachment_42081\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/wp.info.ufrn.br\/admin\/portal-ufrn\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2020\/11\/Roman_school-1024x553.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-42081\"\/><figcaption>Um professor com tr\u00eas disc\u00edpulos. Relevo encontrado em Neumagen perto de Trier (180 \u2013 185 a.C.)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo Natalia Mota, durante essa Era, o ser humano passou a ter maior contato com seu pensamento e sua consci\u00eancia, por isso, \u00e9 poss\u00edvel perceber tantas mudan\u00e7as na estrutura do discurso a partir desse per\u00edodo hist\u00f3rico. \u201cDesde esse momento, a forma\u00e7\u00e3o cognitiva do pensamento foi se tornando mais conectada e esse fato teve em consequ\u00eancia uma literatura com hist\u00f3rias mais complexas. No estudo, vimos que essa din\u00e2mica \u00e9 milenar e separa justamente esse per\u00edodo de grandes civiliza\u00e7\u00f5es, onde houve movimento de misturas de culturas. Isso permite observar que a forma de viver em sociedade influencia a cogni\u00e7\u00e3o humana, em como nos comunicamos, expressamos e entendemos o mundo\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A an\u00e1lise dos textos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pesquisadores analisaram 734 textos liter\u00e1rios representativos abrangendo 4,5 mil\u00eanios. S\u00e3o publica\u00e7\u00f5es antigas, como o&nbsp;<em>Livro dos Mortos do Antigo Egito<\/em>&nbsp;e os primeiros livros da&nbsp;civiliza\u00e7\u00e3o sum\u00e9ria, passando pelos cl\u00e1ssicos da cultura greco-romana, judaico-crist\u00e3, asi\u00e1tica, hindu, persa, medieval, at\u00e9 chegar na Idade Moderna e Contempor\u00e2nea. Observaram, inclusive, a literatura produzida hoje em dia em&nbsp;<em>blogs<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-dWmNG_u3VBI\/VK_lU5hPxzI\/AAAAAAAACrs\/RtSgViblHec\/s1600\/1280px-BD_Weighing_of_the_Heart.jpg\" alt=\"Reino de Clio: O LIVRO DOS MORTOS EG\u00cdPCIO\"\/><figcaption>Registro do Livro dos Mortos do Antigo Egito<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudo mostrou que, por mais infantil ou psic\u00f3tico que seja, os registros textuais antigos s\u00f3 atingiram um plat\u00f4 estrutural por volta de 800 antes de Cristo. Esta transi\u00e7\u00e3o emp\u00edrica acentuada, bem como os tempos caracter\u00edsticos, concorda bem com o colapso cultural entre os fim da Idade do Bronze e o in\u00edcio da Idade Axial, como mencionado antes, quando fen\u00f4menos clim\u00e1ticos levaram \u00e0 desorganiza\u00e7\u00e3o social, perturba\u00e7\u00e3o educacional e redu\u00e7\u00e3o da alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo a pesquisa, todos os discursos observados nos livros achados apresentam uma vis\u00e3o abrangente da linha do tempo, com o objetivo de entender a cultura compartilhada nos dias atuais pelos seres humanos.&nbsp;De forma semelhante a como a alfabetiza\u00e7\u00e3o estimula a estrutura\u00e7\u00e3o da fala, ela tamb\u00e9m parece ter contribu\u00eddo para a evolu\u00e7\u00e3o cultural do nosso discurso. De acordo com Sylvia, a pesquisa ainda sugere que alguns grupos apresentaram caracter\u00edsticas distintas em sua estrutura de discurso, como, por exemplo, adultos pr\u00e9-alfabetizados ou sociedades que n\u00e3o usam sistemas de escrita formais. \u201cOutro exemplo \u00e9 o que ocorre no desenvolvimento at\u00edpico, como em indiv\u00edduos com psicoses, em que o efeito da educa\u00e7\u00e3o formal n\u00e3o se mostra t\u00e3o evidente devido aos sintomas que acometem o discurso\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ars.els-cdn.com\/content\/image\/1-s2.0-S2211949320300181-gr3.jpg\" alt=\"\"\/><figcaption>O amadurecimento da estrutura liter\u00e1ria reflete o tempo hist\u00f3rico<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir da sele\u00e7\u00e3o dos textos, foi feito um resgate hist\u00f3rico do funcionamento da mentalidade dos povos buscando compreender como e onde se deu os fatores ligados a todo esse processo. \u201cIsso nos ajuda, assim como todos os setores da ci\u00eancia b\u00e1sica, a compreender melhor como se d\u00e3o esses fen\u00f4menos para tra\u00e7ar melhores estrat\u00e9gias para orientar as pessoas de como se devem desenvolver essas quest\u00f5es todas. A gente consegue olhar para a humanidade e como ela desenvolveu uma maneira de se relacionar com o passado e o futuro. A literatura traz essa possibilidade de viajar no tempo, a gente consegue ouvir a voz dos nossos ancestrais e entender n\u00e3o apenas como eles falavam, mas tamb\u00e9m o conte\u00fado do que eles estavam falando\u201d, afirma Natalia Mota.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>\u201cUm sistema que se retroalimenta\u201d&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sylvia Pinheiro observa que pesquisa com mapeamento do discurso atrav\u00e9s de grafos vem se expandindo nos \u00faltimos anos e se mostrando promissora para auxiliar diagn\u00f3sticos na \u00e1rea cl\u00ednica, al\u00e9m de contribuir para pesquisa aplicada e b\u00e1sica na educa\u00e7\u00e3o e neuroci\u00eancia. \u201cO presente estudo nos ajuda a entender um pouco mais sobre a evolu\u00e7\u00e3o da linguagem da nossa esp\u00e9cie e a refor\u00e7ar a import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o formal nos primeiros anos escolares. Discutimos se algumas habilidades cognitivas que s\u00e3o estimuladas pelo letramento podem tamb\u00e9m ter se consolidado na nossa esp\u00e9cie com o estabelecimento dos sistemas de escrita. Por exemplo, com a hip\u00f3tese de que a libera\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria de trabalho proporcionada pelo novo m\u00e9todo de registro da realidade, permitiria o desenvolvimento de discursos mais complexos\u201d, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ars.els-cdn.com\/content\/image\/1-s2.0-S2211949320300181-gr5.jpg\" alt=\"Figura 5\"\/><figcaption>Transi\u00e7\u00e3o emp\u00edrica na estrutura do texto pr\u00f3ximo ao in\u00edcio da Era Axial<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O papel da educa\u00e7\u00e3o no desenvolvimento da estrutura da fala \u00e9, nas palavras de Natalia Mota, \u201cum sistema que se retroalimenta\u201d. Isso porque o desenvolvimento cognitivo permite que haja um bom desenvolvimento infantil, contribuindo para a melhora de aspectos relacionados \u00e0 capacidade de se comunicar e para a qualidade das rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pesquisadora diz que a literatura e os livros s\u00e3o produtos de um ac\u00famulo cultural datado por mil\u00eanios. Neste novo estudo, o sistema de grafos da fala mostra bem esse processo, no qual a medida que a estrutura do discurso ganha complexidade ao longo do tempo, pois detalhes mais profundos s\u00e3o acrescentados na conta\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria. No fim, o resultado \u00e9 uma longa teia bem conectada de assuntos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sistemas.ufrn.br\/shared\/verImagem?salvar=false&amp;idArquivo=6412271&amp;key=16e892b5d38b831806db8c2a01febf7a\" alt=\"Foto: C\u00edcero Oliveira\"\/><figcaption>Educa\u00e7\u00e3o infantil na UFRN \u2013 Foto: C\u00edcero Oliveira<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando uma crian\u00e7a l\u00ea um livro, por exemplo, ela n\u00e3o absorve somente o conte\u00fado, mas aprende a se comunicar a partir de como as hist\u00f3rias s\u00e3o contadas. \u201cEssa maneira de contar as hist\u00f3rias nos livros permite que a crian\u00e7a, que est\u00e1 entrando em contato com esse instrumento, aprenda essa maneira de se comunicar, comece a contar suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias para os outros e organize sua mentalidade interna\u201d, conclui Natalia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estudo confirma que educa\u00e7\u00e3o est\u00e1 ligada ao amadurecimento cognitivo Jos\u00e9 de Paiva Rebou\u00e7as e Marcelha Pereira \u2013 Agecom\/Sala de Ci\u00eancia&nbsp; A educa\u00e7\u00e3o e o avan\u00e7o da tecnologia fazem as crian\u00e7as de hoje parecerem g\u00eanios se comparadas a pessoas de s\u00e9culos atr\u00e1s.&nbsp; Isso, no entanto, n\u00e3o aconteceu da noite para o dia e nem pode ser considerado um fen\u00f4meno recente. 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