{"id":2055,"date":"2020-08-10T19:53:00","date_gmt":"2020-08-10T22:53:00","guid":{"rendered":"http:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/?p=2055"},"modified":"2020-08-12T20:02:16","modified_gmt":"2020-08-12T23:02:16","slug":"estudo-relaciona-depressao-a-processo-inflamatorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/2020\/08\/10\/estudo-relaciona-depressao-a-processo-inflamatorio\/","title":{"rendered":"Estudo relaciona depress\u00e3o a processo inflamat\u00f3rio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Por Marcos Neves Jr &#8211; Agecom\/UFRN<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Animador e pioneiro em seus resultados. Assim \u00e9 classificado um estudo que utiliza a ayahuasca como solu\u00e7\u00e3o cl\u00ednica para a depress\u00e3o resistente ao tratamento convencional. Al\u00e9m de controlar os sintomas depressivos logo um dia ap\u00f3s a administra\u00e7\u00e3o, a subst\u00e2ncia ocasionou redu\u00e7\u00e3o de marcadores de inflama\u00e7\u00e3o, o que abre caminhos novos na pesquisa de psicod\u00e9licos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/10.1177\/0269881120936486\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Publicado no&nbsp;<em>Journal of Psychopharmacology<\/em><\/a>, o artigo \u00e9 um desdobramento de uma pesquisa que mostrava o efeito antidepressivo da ayahuasca, realizada por Fernanda Palhano, do laborat\u00f3rio de Neuroimagem Funcional do Instituto do C\u00e9rebro (ICe\/UFRN). Por\u00e9m esse estudo partiu da seguinte pergunta: por que ele se d\u00e1 t\u00e3o rapidamente? Para investigar tal quest\u00e3o, foram analisadas amostras de sangue e saliva de quatro grupos: 14 pacientes tratados com a ayahuasca, outros 14 com placebo, al\u00e9m de 45 volunt\u00e1rios sem o transtorno que receberam uma subst\u00e2ncia ou a outra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um intervalo de apenas 48 horas, os pacientes e volunt\u00e1rios tratados com a ayahuasca apresentaram diminui\u00e7\u00e3o do perfil inflamat\u00f3rio em rela\u00e7\u00e3o aos que tomaram o placebo. O biomarcador utilizado para demonstrar essa melhora foi a Prote\u00edna C-Reativa, que apresentou redu\u00e7\u00e3o em seus n\u00edveis diante da ayahuasca, sendo correlacionada \u00e0 melhora dos sintomas depressivos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa prote\u00edna \u00e9 produzida no f\u00edgado como resposta a toda ativa\u00e7\u00e3o de uma cascata inflamat\u00f3ria e, portanto, n\u00e3o \u00e9 uma exclusividade do organismo das pessoas com depress\u00e3o. No entanto, a resist\u00eancia ao tratamento por parte desses pacientes, que somam cerca de 30% dos casos, v\u00eam sendo associada a uma inflama\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica moderada. N\u00e3o chega a ser forte como a rea\u00e7\u00e3o imunol\u00f3gica a um v\u00edrus, mas \u00e9 prolongada e, consequentemente, mal\u00e9fica.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/wp.info.ufrn.br\/admin\/portal-ufrn\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2020\/08\/15960524775f21d3fd9b5b4_1596052477_3x2_md.jpg\" alt=\"\"\/><figcaption><em> Nicole Leite Galv\u00e3o-Coelho, do Departamento de Fisiologia e Comportamento da UFRN<\/em>.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com Nicole Leite Galv\u00e3o-Coelho, professora do Departamento de Fisiologia e Comportamento (DFS\/UFRN) e autora principal do artigo, a pesquisa apresenta perspectivas interessantes para o uso de subst\u00e2ncias psicod\u00e9licas, aumentando seus horizontes de aplica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cOs resultados s\u00e3o bem animadores porque mostram os meios pelos quais esses psicod\u00e9licos atuam, refor\u00e7ando que, al\u00e9m de eles estarem sendo ben\u00e9ficos para sintomas depressivos, tamb\u00e9m est\u00e3o melhorando vias fisiol\u00f3gicas alteradas que precisam ser equilibradas para restabelecer a homeostase do indiv\u00edduo. Temos de trabalhar mente e corpo na depress\u00e3o, pois \u00e9 tudo interligado\u201d, explica a pesquisadora.N\u00e3o somente animadores, os resultados do estudo s\u00e3o ainda pioneiros. Foi o primeiro ensaio cl\u00ednico com psicod\u00e9lico controlado com placebo, o chamado teste duplo cego, a mostrar em humanos um efeito anti-inflamat\u00f3rio. \u201cCom isso, o j\u00e1 efervescente campo de pesquisa com subst\u00e2ncias psicod\u00e9licas pode ganhar novos horizontes de aplica\u00e7\u00e3o, indo al\u00e9m dos transtornos mentais\u201d, prev\u00ea Draulio Ara\u00fajo, chefe do laborat\u00f3rio de Neuroimagem Funcional, do Instituto do C\u00e9rebro (ICe) da UFRN.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/wp.info.ufrn.br\/admin\/portal-ufrn\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2019\/11\/Draulio-Ara%C3%BAjo-_27nov19_Anast%C3%A1cia-Vaz_1-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-31578\"\/><figcaption><em>Professor Dr\u00e1ulio Ara\u00fajo, do Instituto do C\u00e9rebro, explica que estudos s\u00e3o pioneiros<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com indica\u00e7\u00e3o pr\u00e9via desse efeito anti-inflamat\u00f3rio em estudos te\u00f3ricos, testes&nbsp;<em>in vitro<\/em>&nbsp;e em modelos animais, a expectativa de que tais resultados se reproduzissem tamb\u00e9m em humanos era grande. A professora Nicole, por\u00e9m, ressalta que a pesquisa precisa continuar para alcan\u00e7ar dados mais abrangentes, embora essas informa\u00e7\u00f5es j\u00e1 signifiquem um avan\u00e7o importante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cN\u00f3s achamos para um marcador inflamat\u00f3rio, mas n\u00e3o encontramos para outros, como a interleucina 6, e isso pode ter acontecido por ter sido apenas uma investiga\u00e7\u00e3o pontual desses biomarcadores no sangue. Precisamos analisar outros pontos ap\u00f3s o tratamento para vermos as respostas de diferentes biomarcadores, se elas mudam ao longo do tempo. \u00c9 o in\u00edcio, trouxe resultados favor\u00e1veis, mas necessitamos de mais estudos\u201d, afirma a professora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Benef\u00edcios da ayahuasca<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez mais facilmente lembrada entre o grande p\u00fablico como o ch\u00e1 do Santo Daime, gra\u00e7as ao uso religioso que este grupo faz da bebida, a ayahuasca \u00e9 uma infus\u00e3o da casca do cip\u00f3 liana e de outras plantas, em especial a chacrona. A bebida \u00e9 amplamente difundida entre povos ind\u00edgenas amaz\u00f4nicos e faz parte da sua medicina tradicional. Do ponto de vista legal, sua regulamenta\u00e7\u00e3o mais recente no Brasil \u00e9 de 2010, com permiss\u00e3o de uso para fins ritual\u00edsticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pesquisadores, por sua vez, v\u00eam estudando ainda mais a ayahuasca e os seus poss\u00edveis benef\u00edcios para a sa\u00fade. Al\u00e9m dos efeitos anti-inflamat\u00f3rios, as amostras moleculares analisadas por Nicole e Bruno Lob\u00e3o, professor do Departamento de Biof\u00edsica e Farmacologia (DBF\/UFRN), outras consequ\u00eancias interessantes da administra\u00e7\u00e3o da subst\u00e2ncia foram encontradas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Principal horm\u00f4nio respons\u00e1vel pelo estresse, o cortisol teve seus n\u00edveis regulados tamb\u00e9m ap\u00f3s 48 horas em pacientes de depress\u00e3o. A ayahuasca agiu ainda sobre a prote\u00edna conhecida como BDNF. Relacionada \u00e0 neuroplasticidade, capacidade do sistema nervoso de se adaptar diante de novas experi\u00eancias e est\u00edmulos, essa prote\u00edna teve seus n\u00edveis elevados, o que n\u00e3o se repetiu no grupo tratado com placebo. Ambas as conclus\u00f5es geraram artigos anteriormente publicados na revista cient\u00edfica Frontiers.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por todos esses motivos, o momento \u00e9 de bastante otimismo para estudiosos dos psicod\u00e9licos. Frente ao fato de serem subst\u00e2ncias proibidas na maioria dos pa\u00edses, ocasionando alguma marginaliza\u00e7\u00e3o e um certo arrefecimento nas pesquisas por d\u00e9cadas, Nicole acredita que se vive atualmente uma ressurg\u00eancia desses estudos e com resultados muito satisfat\u00f3rios n\u00e3o s\u00f3 da ayahuasca, mas tamb\u00e9m do LSD e da Psilocibina.<br><br>\u201cAbrimos as portas, mostrando que os psicod\u00e9licos s\u00e3o tamb\u00e9m anti-inflamat\u00f3rios. Quem sabe no futuro n\u00e3o poderemos ter o uso deles no tratamento de doen\u00e7as autoimunes, por exemplo, que t\u00eam um perfil inflamat\u00f3rio muito alto? \u00c9 o in\u00edcio, temos muito a descobrir e mais estudos a serem feitos, mas com certeza esse estigma ser\u00e1 derrubado com ci\u00eancia, com estudos s\u00e9rios, de qualidade, pois \u00e9 assim que se quebram as barreiras\u201d, conclui a pesquisadora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marcos Neves Jr &#8211; Agecom\/UFRN Animador e pioneiro em seus resultados. Assim \u00e9 classificado um estudo que utiliza a ayahuasca como solu\u00e7\u00e3o cl\u00ednica para a depress\u00e3o resistente ao tratamento convencional. Al\u00e9m de controlar os sintomas depressivos logo um dia ap\u00f3s a administra\u00e7\u00e3o, a subst\u00e2ncia ocasionou redu\u00e7\u00e3o de marcadores de inflama\u00e7\u00e3o, o que abre caminhos novos na pesquisa de psicod\u00e9licos. 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