{"id":2045,"date":"2020-08-04T18:04:09","date_gmt":"2020-08-04T21:04:09","guid":{"rendered":"http:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/?p=2045"},"modified":"2020-08-04T18:04:59","modified_gmt":"2020-08-04T21:04:59","slug":"pesquisa-confirma-diferenca-estrutural-dos-sonhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/2020\/08\/04\/pesquisa-confirma-diferenca-estrutural-dos-sonhos\/","title":{"rendered":"Pesquisa confirma diferen\u00e7a estrutural dos sonhos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde a d\u00e9cada de 1950 a ci\u00eancia vem demonstrando que o sono REM, Movimento R\u00e1pido dos Olhos na sigla em ingl\u00eas, \u00e9 importante para diversas fun\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas e cognitivas. Essa \u00e9 tamb\u00e9m a fase com maior predomin\u00e2ncia dos sonhos mais v\u00edvidos, bizarros e emocionais. Embora a complexidade estrutural dos relatos on\u00edricos j\u00e1 seja conhecida h\u00e1 d\u00e9cadas, um grupo de pesquisadores do Instituto do C\u00e9rebro (ICe) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), liderado pelo neurocientista Sidarta Ribeiro, foi o primeiro a provar que o sono REM \u00e9 o que apresenta maior conectividade de palavras, criando narrativas mais complexas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estudos cl\u00e1ssicos dividem o ciclo do sono em pelo menos quatro est\u00e1gios. O inicial N1 ocorre, normalmente, pouco depois de fechar os olhos, sendo caracterizado por sonhos muito breves. Seguem-se os est\u00e1gios N2 e N3, durante os quais se registram&nbsp;diminui\u00e7\u00e3o dos ritmos card\u00edacos e respirat\u00f3rios, relaxamento dos m\u00fasculos e diminui\u00e7\u00e3o da temperatura. \u00c9 poss\u00edvel obter relatos de sonhos em todos esses est\u00e1gios, mas \u00e9 durante o sono REM que se registra a maior e mais intensa atividade on\u00edrica. A despeito de d\u00e9cadas de estudos sobre in\u00fameros aspectos dos relatos de sonhos, faltava ainda uma compara\u00e7\u00e3o quantitativa da organiza\u00e7\u00e3o estrutural, palavra a palavra, dos relatos durante diferentes fases do sono.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Utilizando a teoria de grafos, o estudo da UFRN analisou 133 relat\u00f3rios de sonhos obtidos de 20 participantes. O estudo consistiu em despertar os volunt\u00e1rios em diferentes fases do sono, principalmente nos est\u00e1gios REM, onde ocorre maior registro de sonhos, e N2, que n\u00e3o produz tantos relatos on\u00edricos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/wp.info.ufrn.br\/admin\/portal-ufrn\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2020\/08\/journal.pone_.0228903.g001-1024x627.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-38602\"\/><figcaption>An\u00e1lise de gr\u00e1fico de palavras aplicada a relat\u00f3rios de sonhos<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com Joshua Martin, primeiro autor do estudo, a an\u00e1lise de relat\u00f3rios de sonhos quase sempre se baseou exclusivamente em ju\u00edzos humanos, que podem consumir muito tempo e introduzir problemas de vieses subjetivos. O estudo da UFRN demonstra que a estrutura dos relatos orais \u00e9 informativa das principais vari\u00e1veis da pesquisa on\u00edrica, como o est\u00e1gio do sono, em que o relato on\u00edrico foi obtido, e os aspectos de sua complexidade narrativa. \u201cEsses resultados s\u00e3o promissores, pois indicam que m\u00e9todos computacionais podem ser aplicados aos estudos do estado on\u00edrico\u201d, afirma Joshua, que realizou o estudo como disserta\u00e7\u00e3o de mestrado defendida junto ao programa de Psicobiologia da UFRN e, atualmente, cursa doutorado na Charit\u00e9 \u2013 Universit\u00e4tsmedizin Berlin (Alemanha) em conjunto com o Berlin School of Mind and Brain.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A an\u00e1lise estrutural desses relatos de sonhos procurou identificar onde ocorre maior conex\u00e3o e complexidade, considerando a trajet\u00f3ria das palavras apresentadas nos grafos. \u201cQuando fazemos compara\u00e7\u00e3o com medidas cl\u00e1ssicas de sonhos, vemos que o que \u00e9 considerado sonho de maior complexidade, em termos de informa\u00e7\u00e3o e de narrativa, \u00e9 exatamente aquele que tem maior conectividade\u201d, afirmou a p\u00f3s-doutoranda Natalia Mota, uma das autoras do estudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por ser o primeiro estudo a demonstrar que os relatos on\u00edricos obtidos durante o sono REM possuem maior conex\u00e3o estrutural em compara\u00e7\u00e3o com os relatos obtidos durante o est\u00e1gio N2, o trabalho contribui para diferenciar os relatos de sonho obtidos durante o sono REM e o sono n\u00e3o-REM. \u201c\u00c9 tamb\u00e9m o primeiro estudo a demonstrar que aspectos da teoria de grafos podem capturar caracter\u00edsticas subjacentes da complexidade dos sonhos, de modo que sonhos mais complexos est\u00e3o associados a uma maior conex\u00e3o e estruturas de grafo menos aleat\u00f3rias\u201d, refor\u00e7a Joshua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na vis\u00e3o dos pesquisadores, o estudo oferece ainda um m\u00e9todo interessante para estudo de relato de sonhos j\u00e1 que caracteriza, de uma maneira mais precisa e automatizada, observar essas diferen\u00e7as de estado mental em sujeitos saud\u00e1veis em diferentes estados de consci\u00eancia fisiol\u00f3gica do sono. Joshua Martin aponta \u00e0 an\u00e1lise de grafos como uma alternativa automatizada e economicamente promissora aos m\u00e9todos existentes no estudo do sonho. Sidarta Ribeiro concorda com Joshua, seu ex-orientando, e confirma que o trabalho abre portas para a investiga\u00e7\u00e3o quantitativa dos relatos on\u00edricos, aumentando a acur\u00e1cia e a velocidade das an\u00e1lises.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cOutra relev\u00e2ncia \u00e9 que os resultados sugerem que este m\u00e9todo, simples e n\u00e3o invasivo, pode nos informar objetivamente o grau da complexidade do funcionamento do nosso c\u00e9rebro. Assim, uma an\u00e1lise longitudinal pode nos ajudar a detectar precocemente doen\u00e7as neurodegenerativas\u201d, refor\u00e7a&nbsp;John Fontenele Ara\u00fajo, que tamb\u00e9m assina a pesquisa e foi co-oriantador do trabalho.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/wp.info.ufrn.br\/admin\/portal-ufrn\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2020\/08\/journal.pone_.0228903.g004-1024x614.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-38601\"\/><figcaption>Gr\u00e1fico de barras empilhadas mostrando a preval\u00eancia dos relat\u00f3rios dos sonhos e o tipo de menta\u00e7\u00e3o lembrada<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/journals.plos.org\/plosone\/article?id=10.1371\/journal.pone.0228903\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Publicado na revista&nbsp;<em>Plos One<\/em>, da&nbsp;<em>Public Library of Science<\/em>, o estudo<\/a>&nbsp;foi desenvolvido em coopera\u00e7\u00e3o com Danyal Wainstein Andriano e Mark Solms, da Universidade da Cidade do Cabo (Cidade do Cabo, \u00c1frica do Sul). Assinam ainda o artigo o pesquisador da UFRN Sergio Mota-Rolim. Declara Sidarta Ribeiro: \u201cEstou muito satisfeito com a frut\u00edfera colabora\u00e7\u00e3o internacional sul-sul que o Joshua criou. Sua presen\u00e7a inteligente, bem humorada e muito eficaz na UFRN foi um presente da \u00c1frica do Sul para o Brasil\u201d, declarou Sidarta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Futuro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pesquisadores acreditam que fases futuras dessa pesquisa podem incorporar relat\u00f3rios de sonhos coletados nos est\u00e1gios restantes do sono n\u00e3o REM (N1 e N3), bem como relatos de vig\u00edlia para uma compara\u00e7\u00e3o adequada. \u201cIsso pode nos ajudar a caracterizar como a estrutura do relato \u00e9 alterada ao longo do ciclo de vig\u00edlia em rela\u00e7\u00e3o aos aspectos do funcionamento mental subjacente e pode controlar adicionalmente a influ\u00eancia potencial de confus\u00e3o da in\u00e9rcia do sono em nossos resultados\u201d, disse Joshua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para ele, um acompanhamento cl\u00ednico potencial pode envolver a avalia\u00e7\u00e3o de como a estrutura de grafos dos relatos de sonhos \u00e9 afetada em pacientes com dist\u00farbios do sono REM e n\u00e3o REM, ou de acordo com a administra\u00e7\u00e3o de medicamentos psiqui\u00e1tricos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde a d\u00e9cada de 1950 a ci\u00eancia vem demonstrando que o sono REM, Movimento R\u00e1pido dos Olhos na sigla em ingl\u00eas, \u00e9 importante para diversas fun\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas e cognitivas. 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