{"id":1862,"date":"2020-03-02T18:58:27","date_gmt":"2020-03-02T21:58:27","guid":{"rendered":"http:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/?p=1862"},"modified":"2020-03-02T19:01:44","modified_gmt":"2020-03-02T22:01:44","slug":"sonho-no-pais-do-sol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/2020\/03\/02\/sonho-no-pais-do-sol\/","title":{"rendered":"Sonho no Pa\u00eds do Sol"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Sidarta Ribeiro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por natureza e destino minha rela\u00e7\u00e3o com os sonhos come\u00e7ou cedo. Durante a inf\u00e2ncia tive pesadelos detest\u00e1veis e sonhos \u00e9picos memor\u00e1veis, que germinaram em mim a suspeita de que o mundo interior \u00e9 t\u00e3o vasto quanto o exterior. No in\u00edcio experimentava apenas o espanto&#8230; S\u00f3 muito depois entendi que a viv\u00eancia on\u00edrica era constru\u00edda pela ativa\u00e7\u00e3o intensa de mem\u00f3rias durante o sono REM (\u201c<em>rapid eye movement sleep<\/em>\u201d), que domina a segunda metade da noite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo da adolesc\u00eancia e do in\u00edcio da vida adulta, numa explora\u00e7\u00e3o realizada com alguns dos melhores amigos desde sempre, aprendi a realizar intensos sonhos l\u00facidos &#8211; aqueles nos quais nos damos conta de que estamos num sonho e podemos controlar seu enredo. Guiado por mestras e mestres geniais, entendi que sonhar \u00e9 poder.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o por coincid\u00eancia, nosso pa\u00eds se agitava no in\u00edcio dos anos 1990 com o sonho renascido do conv\u00edvio democr\u00e1tico. Sonhei de olhos abertos com nossas melhores chances, mas a realidade n\u00e3o foi muito generosa com nada disso. Pairava no ar a sensa\u00e7\u00e3o de que nunca superar\u00edamos nosso terr\u00edvel abismo social, nem deixar\u00edamos de ser vira-latas entre os povos. No zumbido ensurdecedor do nosso subdesenvolvimento, castravam-se as melhores esperan\u00e7as do Pa\u00eds do Sol.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em meados daquela d\u00e9cada rumei para a Universidade Rockefeller em Nova York a fim de cursar o doutorado. Novamente intervieram acaso e necessidade, pois minha chegada em pleno inverno deflagrou uma sonol\u00eancia invenc\u00edvel que durou at\u00e9 o in\u00edcio da primavera. N\u00e3o conseguia assistir aulas sem dormir nem compreendia o que colegas e professores discutiam. Foram meses de apag\u00e3o mental e rendi\u00e7\u00e3o ao sonho, que a princ\u00edpio parecia uma auto-sabotagem cruel mas depois se revelou poderoso instrumento de adapta\u00e7\u00e3o psicobiol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao emergir desses longo torpor, achando f\u00e1cil tudo que nos meses anteriores havia sido imposs\u00edvel, decidi pesquisar os mecanismos neurais respons\u00e1veis pelo papel do sono no aprendizado. Comecei a ler a obra de Freud e percebi com nitidez que a rela\u00e7\u00e3o entre neuroci\u00eancia e psican\u00e1lise \u00e9 \u00edntima. Cinco anos depois, havia descrito pela primeira vez que as experi\u00eancias novas da vig\u00edlia ativam, no sono REM subsequente, a express\u00e3o de genes relacionados com a consolida\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias. Nos termos de Freud, revelava-se um \u201cresto diurno\u201d molecular. Essa descoberta foi o in\u00edcio de uma carreira orientada para a compreens\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o cognitiva do sono e dos sonhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2001, j\u00e1 realizando estudos de p\u00f3s-doutorado na Universidade Duke, comecei a escrever um livro motivado pela sensa\u00e7\u00e3o de j\u00e1 ser poss\u00edvel tecer uma narrativa coerente capaz de explicar, pelo fio condutor do sono e do sonho, de que forma sa\u00edmos das cavernas e chegamos ao mundo da internet.\u00a0 Publicado h\u00e1 poucos meses, \u201cO Or\u00e1culo da Noite\u201d (Cia das Letras) prop\u00f5e que a for\u00e7a propulsora desse ac\u00famulo cultural t\u00e3o abrupto foi nossa capacidade de sonhar, lembrar e narrar. O uso das mem\u00f3rias do passado para construir estrat\u00e9gias comportamentais futuras constituiu a base de um poderoso &#8211; ainda que probabil\u00edstico &#8211; or\u00e1culo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/sid-2.png\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No doutorado e no p\u00f3s-doutorado, trabalhei com afinco na constru\u00e7\u00e3o de um outro tipo de sonho, a meio caminho entre o sonho pessoal e o sonho nacional: a cria\u00e7\u00e3o no Nordeste brasileiro de um instituto de pesquisa de ponta sobre o c\u00e9rebro. Em parceria com os neurocientistas Claudio Mello, Sergio Neuenschwander e Miguel Nicolelis, entre outros, comecei a planejar um movimento de repatria\u00e7\u00e3o de cientistas brasileiros e atra\u00e7\u00e3o de cientistas estrangeiros. Esse movimento culminou em 2005 na funda\u00e7\u00e3o do Instituto Internacional de Neuroci\u00eancias de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), que fundei e dirigi cientificamente em seus primeiros anos de exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil despertava para sua imensas potencialidades e a instala\u00e7\u00e3o desse centro atraiu aten\u00e7\u00e3o em todo o planeta. Firmou-se uma parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e os chefes de laborat\u00f3rio do IINN-ELS passaram a integrar o corpo docente da UFRN atrav\u00e9s de concursos p\u00fablicos criados pelo ent\u00e3o Ministro da Educa\u00e7\u00e3o Fernando Haddad. Era palp\u00e1vel a percep\u00e7\u00e3o de que o Pa\u00eds do Sol finalmente havia entrado nos trilhos do futuro. Chegara a vez de transformar a regi\u00e3o Nordeste na Calif\u00f3rnia brasileira!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Natal se transformou nesse per\u00edodo num irresist\u00edvel polo de atra\u00e7\u00e3o de neurocientistas, invertendo a l\u00f3gica de evas\u00e3o de c\u00e9rebros nessa \u00e1rea espec\u00edfica do conhecimento. Foi nessa \u00e9poca que consolidei com minha equipe uma das descobertas mais interessantes dessa pesquisa at\u00e9 agora, ao obter evid\u00eancias in\u00e9ditas de que o sono REM desempenha um papel chave na realoca\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias dentro do c\u00e9rebro, entre as regi\u00f5es conhecidas como hipocampo e c\u00f3rtex cerebral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sabemos desde os anos 1950 que o hipocampo funciona como porta de entrada para as mem\u00f3rias do tipo declarativo (fatos, eventos, lugares, pessoas), mas tamb\u00e9m sabemos que com o transcorrer do tempo estas mem\u00f3rias s\u00e3o enfraquecidas e transferidas para o c\u00f3rtex cerebral, onde adquirem estabilidade e vida longa. Os mecanismos respons\u00e1veis por essa transfer\u00eancia permaneceram desconhecidos at\u00e9 que os resultados obtidos por meu grupo de pesquisa indicaram que a express\u00e3o g\u00eanica ativada pelo sono REM realiza o mesmo percurso das mem\u00f3rias: primeiro ocorre no hipocampo, depois entre hipocampo e c\u00f3rtex e, finalmente, apenas no c\u00f3rtex. O sono REM despontou como um estado fisiol\u00f3gico crucial para a migra\u00e7\u00e3o e amadurecimento das mem\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas nem tudo foram flores, claro. Com o tempo as tens\u00f5es dentro do IINN-ELS se acumularam e afinal, noventa professores, t\u00e9cnicos e alunos deixaram esse centro privado para fundar na UFRN o Instituto do C\u00e9rebro (ICe), em 13 de maio de 2011. Tive a honra de dirigir o ICe at\u00e9 2018, quando assumiu a nova diretora, Kerstin Schmidt, alem\u00e3 radicada no Brasil, especialista em c\u00f3rtex visual. Apesar das dificuldades inerentes ao recome\u00e7o, conseguimos construir um ciclo virtuoso que elevou o impacto de nossa produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Os pesquisadores do ICe publicaram centenas de artigos cient\u00edficos originais desde sua funda\u00e7\u00e3o, chegando \u00e0s p\u00e1ginas de algumas das revistas cient\u00edficas de maior prest\u00edgio no mundo. Tamb\u00e9m desempenhamos um papel decisivo na forma\u00e7\u00e3o de pessoal altamente qualificado, fomentando novas e brilhantes gera\u00e7\u00f5es de neurocientistas. A\u00e7\u00f5es de extens\u00e3o direcionadas ao p\u00fablico mais amplo tamb\u00e9m vicejaram. Pelo conjunto de suas atividades, o ICe recebeu em 2017 o Pr\u00eamio Celso Furtado de Desenvolvimento Regional, na categoria \u201c<em>Pr\u00e1ticas exitosas de produ\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o institucional<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em paralelo com o trabalho administrativo, foi nesse per\u00edodo que descobri, em f\u00e9rtil colabora\u00e7\u00e3o com a psiquiatra Nat\u00e1lia Mota e o f\u00edsico Mauro Copelli, da Universidade Federal de Pernambuco, que a estrutura discursiva dos relatos de sonho possui imenso valor quantitativo para o diagn\u00f3stico da esquizofrenia. Essa valida\u00e7\u00e3o inesperada de outro postulado freudiano (\u201c<em>os sonhos s\u00e3o a via r\u00e9gia do inconsciente<\/em>\u201d) reorientou parte do meu laborat\u00f3rio rumo ao \u00e2mago da psiquiatria, o que tem nos valido reconhecimento nacional e internacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seria bom se pudesse interromper a narrativa neste ponto. Afinal, tive a oportunidade de realizar alguns dos meus melhores sonhos. Mas como ficar Odara se a barra pesou em todo o planeta e sobretudo aqui? Como aceitar o desmantelamento progressivo da educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, ci\u00eancia e cultura? Como engolir propostas radicais de restrutura\u00e7\u00e3o administrativa sem estimativa de impacto nem constru\u00e7\u00e3o de consensos, tais como fundir CNPq e Capes, ou extinguir a Finep? Como aceitar o contingenciamento de fundos constitucionais, a incerteza das bolsas da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e a retomada da evas\u00e3o de c\u00e9rebros? Como deglutir a humilha\u00e7\u00e3o injustificada de \u00f3rg\u00e3os t\u00e9cnicos como INPE, ICMBio e IBAMA? A op\u00e7\u00e3o preferencial pelos hosp\u00edcios e pres\u00eddios? A t\u00f3xica guerra \u00e0s drogas? As queimadas na Amaz\u00f4nia, o \u00f3leo no coral? E o pior de tudo: a persegui\u00e7\u00e3o, encarceramento e exterm\u00ednio de \u00edndios, pretos, pobres, favelados, mulheres, gays, jovens e divergentes em geral? O elogio da mentira, o terraplanismo, o m\u00e1ximo cinismo, o anti-cristianismo fingido de simpl\u00edcio nesses tempos t\u00e3o mil\u00edcios?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O paradoxo \u00e9 gritante. Nunca antes tivemos tantos meios para melhorar o mundo. Mesmo assim, insistimos em n\u00e3o ver horizontes, num desespero que escancara a perda de nossa capacidade de sonhar. Nesse Natal \u00e9 preciso relembrar que os caminhos para o progresso social s\u00e3o harmonia, coopera\u00e7\u00e3o, generosidade, perd\u00e3o e respeito profundo: pelas pessoas e pelo conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Precisamos de verdadeiro esp\u00edrito crist\u00e3o e muita imagina\u00e7\u00e3o, tanto para vislumbrar com nitidez o pesadelo que se avizinha, quanto para sonhar tudo que podemos ser do bom e do melhor do sal da vida, do Sol de amor e alegria que nosso povo traz no cora\u00e7\u00e3o. Ou parimos a verdadeira alma brasileira ou ela nos devora. E esse sonho &#8211; ou pesadelo &#8211; \u00e9 agora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Sidarta Ribeiro, professor titular e vice-diretor do Instituto do C\u00e9rebro da UFRN, diretor da SBPC e membro da coordena\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da Plataforma Brasileira de Drogas.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sidarta Ribeiro Por natureza e destino minha rela\u00e7\u00e3o com os sonhos come\u00e7ou cedo. Durante a inf\u00e2ncia tive pesadelos detest\u00e1veis e sonhos \u00e9picos memor\u00e1veis, que germinaram em mim a suspeita de que o mundo interior \u00e9 t\u00e3o vasto quanto o exterior. 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