{"id":1854,"date":"2020-02-13T17:11:50","date_gmt":"2020-02-13T20:11:50","guid":{"rendered":"http:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/?p=1854"},"modified":"2020-02-13T17:12:30","modified_gmt":"2020-02-13T20:12:30","slug":"ayahuasca-e-cannabis-figuram-em-estudos-brasileiros-sobre-potencial-tratamento-de-depressao-e-ansiedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/2020\/02\/13\/ayahuasca-e-cannabis-figuram-em-estudos-brasileiros-sobre-potencial-tratamento-de-depressao-e-ansiedade\/","title":{"rendered":"Ayahuasca e cannabis figuram em estudos brasileiros sobre potencial tratamento de depress\u00e3o e ansiedade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"> <strong>Por Daniel Pompeu<\/strong> &#8211; Revista ComCi\u00eancia<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"> <em>No caso da bebida amaz\u00f4nica, que cont\u00e9m o princ\u00edpio ativo DMT, j\u00e1 existem fortes ind\u00edcios de um efeito antidepressivo em pacientes que n\u00e3o respondem a tratamentos convencionais.<\/em> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os 29 volunt\u00e1rios entre 18 e 60 anos entram, cada um em um dia e hora marcada, em uma sala do Hospital Universit\u00e1rio Onofre Lopes em Natal, no Rio Grande do Norte, ap\u00f3s aceitarem participar de um estudo pioneiro. Todos foram diagnosticados com transtorno depressivo, com baixa resposta aos tratamentos convencionais. Escolhidos aleatoriamente, 14 tomar\u00e3o uma dose de ayahuasca \u2013 bebida extra\u00edda de um arbusto e cip\u00f3 nativos da Amaz\u00f4nia e utilizada em rituais religiosos como os do Santo Daime e da Uni\u00e3o do Vegetal (UDV) \u2013 e 15 um placebo. Ap\u00f3s ingerirem o composto vegetal (ou o placebo) os participantes s\u00e3o instru\u00eddos a manterem os olhos fechados e focarem em seu corpo, sensa\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es pelas pr\u00f3ximas quatro horas. Acompanhados sempre por dois pesquisadores durante a sess\u00e3o, os volunt\u00e1rios podem ouvir a uma&nbsp;<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/playlist\/6sRsIxM4oNEpCPSFDQxAJB?si=WeXUYrhZRzCTUrpshcx6BQ\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">playlist<\/a>&nbsp;pr\u00e9-definida que inclui cl\u00e1ssicos da MPB, como Maria Beth\u00e2nia, Tim Maia, Roberto Carlos e Almir Sater.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudo descrito foi realizado entre 2014 e 2017 por pesquisadores da UFRN, USP e Unicamp e&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.cambridge.org\/core\/journals\/psychological-medicine\/article\/rapid-antidepressant-effects-of-the-psychedelic-ayahuasca-in-treatmentresistant-depression-a-randomized-placebocontrolled-trial\/E67A8A4BBE4F5F14DE8552DB9A0CBC97\">publicado<\/a>&nbsp;na revista&nbsp;<em>Phsycological Medicine<\/em>, da Universidade de Cambridge. A ayahuasca cont\u00e9m o princ\u00edpio ativo DMT (dimetiltriptamina), um poderoso psicod\u00e9lico que pode provocar alucina\u00e7\u00f5es visuais e sonoras. Al\u00e9m de estar presente em algumas plantas, h\u00e1 ind\u00edcios de que a subst\u00e2ncia tamb\u00e9m seja produzida pelo corpo, apesar do mist\u00e9rio sobre sua fun\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica. O objetivo dos cientistas era entender se a ayahuasca provocaria respostas positivas em quadros depressivos, como j\u00e1 havia sido indicado por estudos pr\u00e9vios. O resultado foi categ\u00f3rico: os pacientes tiveram uma redu\u00e7\u00e3o significativa nos sintomas ao tomarem a ayahuasca quando comparados \u00e0queles que receberam um placebo at\u00e9 sete dias ap\u00f3s a dose administrada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudo originou da tese de doutorado em neurologia de Fernanda Palhano-Fontes, que atualmente \u00e9 t\u00e9cnica em neuroengenharia no Instituto do C\u00e9rebro (UFRN). Orientada pelo cientista Dr\u00e1ulio Ara\u00fajo, ela j\u00e1 havia participado de outras pesquisas com a subst\u00e2ncia, mas esse teste foi o primeiro em que administrou placebo a metade dos participantes, em um esquema duplo-cego, no qual nem mesmo os cientistas que analisam os dados sabem se o paciente tomou a subst\u00e2ncia lis\u00e9rgica ou o placebo. Nenhum dos participantes havia tomado ayahuasca antes do estudo e todos estavam, em m\u00e9dia, h\u00e1 15 dias sem tomar medica\u00e7\u00e3o para depress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o objetivo de avaliar os efeitos da droga, os cientistas fizeram uma s\u00e9rie de exames e entrevistas um dia antes do experimento, dois dias ap\u00f3s e sete dias depois. Descobriu-se que o efeito antidepressivo j\u00e1 come\u00e7a um dia ap\u00f3s a administra\u00e7\u00e3o da ayahuasca e \u00e9 ainda maior ap\u00f3s uma semana. \u201cN\u00e3o s\u00f3 avaliamos o efeito antidepressivo em si, mas tamb\u00e9m fizemos v\u00e1rios outros exames tentando ver de onde poderia vir esse efeito\u201d, ressaltou Palhano-Fontes. De acordo com ela, os cientistas notaram um efeito de reequil\u00edbrio dos n\u00edveis de cortisol para aqueles que tomaram a ayahuasca. O desequil\u00edbrio do horm\u00f4nio, associado ao estresse, \u00e9 comum em pacientes com depress\u00e3o severa. A resposta sinaliza grande potencial antidepressivo da subst\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Luis Fernando T\u00f3foli, professor do Departamento de Psicologia M\u00e9dica e Psiquiatria da Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas da Unicamp e um dos coautores do trabalho, apesar dos resultados promissores, ainda n\u00e3o se sabe exatamente o que causa a melhora dos pacientes. Entre as possibilidades e hip\u00f3teses est\u00e3o a experi\u00eancia hol\u00edstica ou emocional associada aos psicod\u00e9licos, o aspecto ritual\u00edstico ou terap\u00eautico da situa\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 mesmo o efeito fisiol\u00f3gico da subst\u00e2ncia, como a redu\u00e7\u00e3o da atividade cerebral em \u00e1reas associadas \u00e0 depress\u00e3o ou o est\u00edmulo na forma\u00e7\u00e3o de sinapses (conex\u00f5es entre neur\u00f4nios). \u201cAinda n\u00e3o temos uma resposta completa para isso\u201d, ressalta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a nova onda de pesquisas sobre o assunto, a ci\u00eancia fica mais perto de entender as raz\u00f5es de tais efeitos terap\u00eauticos. No caso de outra subst\u00e2ncia psicod\u00e9lica, a metilenodioximetanfetamina (MDMA), est\u00e3o em fase final de testes nos Estados Unidos e devem ser regularizados rem\u00e9dios controlados para tratamento de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico nos pr\u00f3ximos anos. No Brasil, um estudo liderado pelos cientistas Sidarta Ribeiro (UFRN) e Stevens Rehen (UFRJ) indica que o LSD (dietilamida do \u00e1cido lis\u00e9rgico) tem capacidade de estimular e melhorar a cogni\u00e7\u00e3o cerebral. A pesquisa, que utilizou ratos e \u201cmini c\u00e9rebros\u201d para testar os efeitos do \u00e1cido, ainda n\u00e3o foi revisada e publicada em revista especializada, mas um artigo pr\u00e9vio descrevendo os resultados est\u00e1&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.biorxiv.org\/content\/10.1101\/866814v1\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">dispon\u00edvel<\/a>&nbsp;no site biorxiv.org.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo T\u00f3foli, mesmo que os psicod\u00e9licos cheguem futuramente ao mercado como novas possibilidades de tratamento para transtornos mentais, sua aplica\u00e7\u00e3o ser\u00e1 feita de maneira controlada devido \u00e0 experi\u00eancia intensa associada a essas subst\u00e2ncias. \u201cNo momento em que a pessoa toma, ela pode precisar de cuidados, eventualmente pode ter quadro de p\u00e2nico ou ansiedade. \u00c9 mais prov\u00e1vel que essas subst\u00e2ncias passem a funcionar em um misto de psicoterapia com a subst\u00e2ncia, e aplicado de forma supervisionada\u201d. E destaca: \u201cn\u00e3o s\u00e3o subst\u00e2ncias milagrosas, elas t\u00eam seus limites e suas contraindica\u00e7\u00f5es, \u00e9 preciso deixar isso claro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Cannabis e a ansiedade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cannabis \u00e9 outra subst\u00e2ncia que tem figurado cada vez mais em estudos na tentativa de identificar seus potenciais para tratamentos de diversas doen\u00e7as. J\u00e1 se sabe, por exemplo, da alta efetividade do canabidiol (CBD), um dos compostos da cannabis, para tratamento de sintomas da esclerose m\u00faltipla, epilepsia, dor cr\u00f4nica e efeitos adversos em pacientes que realizam quimioterapia. No in\u00edcio deste ano, a Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria aprovou uma resolu\u00e7\u00e3o facilitando a importa\u00e7\u00e3o de medica\u00e7\u00e3o composta principalmente pelo CBD no tratamento de tais quadros, mediante recomenda\u00e7\u00e3o m\u00e9dica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os Estados Unidos est\u00e3o mais \u00e0 frente no processo de legaliza\u00e7\u00e3o e regulamenta\u00e7\u00e3o para uso medicinal e recreativo da subst\u00e2ncia. Em diversos estados americanos a maconha j\u00e1 pode ser receitada como medica\u00e7\u00e3o para mitiga\u00e7\u00e3o dos efeitos do chamado transtorno de ansiedade generalizada. A ci\u00eancia, entretanto, ainda n\u00e3o chegou a conclus\u00f5es s\u00f3lidas sobre os efeitos ansiol\u00edticos da planta. Enquanto o CBD tem mostrado efeitos positivos no tratamento da ansiedade, o tetrahidrocanabinol (THC) pode induzir \u00e0 ansiedade e est\u00e1 associado a efeitos adversos como a depend\u00eancia e sintomas psic\u00f3ticos, principalmente quando h\u00e1 uso prolongado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Devido \u00e0 diversidade dos princ\u00edpios ativos presentes na planta, a ci\u00eancia ainda tem uma longa trajet\u00f3ria para atestar ou n\u00e3o o efeito positivo de tais compostos em transtornos como a ansiedade e a depress\u00e3o. \u201cEmbora existam estudos observacionais de pessoas que usam maconha medicinal sugerindo melhoras em quadros de ansiedade e depress\u00e3o, n\u00e3o existem estudos cl\u00ednicos com maconha que confirmem esses resultados\u201d, explica Rafael Guimar\u00e3es dos Santos, pesquisador do Departamento de Neuroci\u00eancias da Faculdade de Medicina da USP de Ribeir\u00e3o Preto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com Santos, apesar dos relatos de usu\u00e1rios de maconha medicinal sobre a melhora nos sintomas de depress\u00e3o e ansiedade, a falta de padroniza\u00e7\u00e3o da planta e dos produtos derivados dificulta as conclus\u00f5es em larga escala. \u201cNo caso do CBD, j\u00e1 existem estudos cl\u00ednicos, alguns realizados por nosso grupo, sugerindo potencial uso para controlar a ansiedade. Estamos realizando no momento o primeiro estudo do CBD focado em depress\u00e3o e ansiedade generalizada. Mas, mesmo com resultados promissores, tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias cient\u00edficas suficientes para justificar o uso do CBD\u201d, conclui o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Daniel Pompeu&nbsp;\u00e9 jornalista e aluno do curso de especializa\u00e7\u00e3o em jornalismo cient\u00edfico e cultural (Labjor\/Unicamp)<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Daniel Pompeu &#8211; Revista ComCi\u00eancia No caso da bebida amaz\u00f4nica, que cont\u00e9m o princ\u00edpio ativo DMT, j\u00e1 existem fortes ind\u00edcios de um efeito antidepressivo em pacientes que n\u00e3o respondem a tratamentos convencionais. 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