{"id":1824,"date":"2020-01-29T15:14:22","date_gmt":"2020-01-29T18:14:22","guid":{"rendered":"http:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/?p=1824"},"modified":"2020-01-29T15:15:30","modified_gmt":"2020-01-29T18:15:30","slug":"ufrn-avanca-na-pesquisa-com-psicodelicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/2020\/01\/29\/ufrn-avanca-na-pesquisa-com-psicodelicos\/","title":{"rendered":"UFRN avan\u00e7a na pesquisa com psicod\u00e9licos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Da Ag\u00eancia Saiba Mais<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa) anunciou na quarta-feira (22) que simplificou a importa\u00e7\u00e3o de medicamentos \u00e0 base de canabidiol, subst\u00e2ncia qu\u00edmica encontrada na maconha e usada em tratamento de sa\u00fade. A decis\u00e3o desobriga a necessidade de laudo m\u00e9dico e facilita a compra desse tipo de componente usando apenas a prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. A not\u00edcia \u00e9 boa para quem precisa do rem\u00e9dio, mas ainda est\u00e1 na contram\u00e3o da ci\u00eancia e da tecnologia nacionais, que poderiam produzir o canabidiol aqui mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Instituto do C\u00e9rebro da UFRN, por exemplo, realiza pesquisas com canabin\u00f3ides em modelos de autismo, tinitus e dist\u00farbios emocionais. H\u00e1 pelo menos cinco anos, o Laborat\u00f3rio de Redes Neurais e Epilepsia, coordenado pelo neurocientista Claudio Queiroz, estuda tamb\u00e9m os efeitos anticonvulsivantes da maconha. Sua equipe multidisciplinar tem desenvolvido protocolos e criado prepara\u00e7\u00f5es capazes de atenuar sinais e sintomas das epilepsias em modelos animais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Experimentos realizados durante o doutorado do estudante Igor Sales observou que baixas doses de extratos ricos canabidiol (CBD), mas com quantidades significativas de tetraidrocanabinol (THC), atenuaram convuls\u00f5es de longa dura\u00e7\u00e3o na mesma propor\u00e7\u00e3o que as drogas tradicionalmente autorizadas para esse tipo de tratamento. Nessa fase, os experimentos concentraram no gerenciamento do estado epil\u00e9ptico, uma emerg\u00eancia m\u00e9dica de dif\u00edcil controle.&nbsp;<em>\u201cNo momento, estamos analisando o efeito de extratos com diferentes propor\u00e7\u00f5es de CBD e THC na atividade eletrogr\u00e1fica de animais cronicamente epil\u00e9pticos\u201d<\/em>, acrescentou Claudio Queiroz, orientador da pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para conseguir esses resultados, o Instituto do C\u00e9rebro desenvolveu e padronizou um protocolo de extra\u00e7\u00e3o que envolve o processo de cura, secagem e moagem da infloresc\u00eancia, descarboxila\u00e7\u00e3o e extra\u00e7\u00e3o dos canabinoides, al\u00e9m da redu\u00e7\u00e3o, estabiliza\u00e7\u00e3o e dilui\u00e7\u00e3o do extrato da cannabis. Tamb\u00e9m criou protocolos capazes de aferir as concentra\u00e7\u00f5es de tr\u00eas dos principais canabinoides (THC, CBD e CBN \u2013 canabinol), fundamentais para o estabelecimento de regimes terap\u00eauticos e posologia. Agora, o Instituto busca apoio para realiza\u00e7\u00e3o de protocolos capazes de detectar presen\u00e7a de contaminantes (microbiol\u00f3gicos, metais pesados e solventes).An\u00fancios<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como pesquisa cient\u00edfica n\u00e3o \u00e9 feita isoladamente, esse trabalho \u00e9 acompanhado e recebe colabora\u00e7\u00e3o de gente daqui e de fora. Pesquisadores de institui\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais, universit\u00e1rias e da iniciativa privada visitam o Instituto do C\u00e9rebro para colabora\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e de forma\u00e7\u00e3o. Entre essas atividades, destacam-se uma s\u00e9rie de debates e oficinas realizadas ao longo dos \u00faltimos anos, permitindo o interc\u00e2mbio de informa\u00e7\u00f5es entre pesquisadores, m\u00e9dicos, pacientes e sociedade civil de todo o Brasil e de outros pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Claudio Queiroz, como essa \u00e9 uma \u00e1rea recente, o fato de o ICe estar desenvolvendo estudos nessa dire\u00e7\u00e3o coloca a UFRN na vanguarda desse tipo de pesquisa no cen\u00e1rio internacional.&nbsp;<em>\u201cA vantagem \u00e9 que, caso se consiga aprofundar nesse tipo de experimenta\u00e7\u00e3o, a UFRN vai poder disputar a lideran\u00e7a nessa \u00e1rea de conhecimento e isso \u00e9 muito vantajoso, pois possibilita que a Universidade possa colher b\u00f4nus e dividendos associados ao desenvolvimento de f\u00e1rmacos e formula\u00e7\u00f5es e, at\u00e9 mesmo, no fornecimento de medicamentos para a sociedade. Mas, para isso, \u00e9 preciso que haja um avan\u00e7o na legisla\u00e7\u00e3o que possibilite esse tipo de produ\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rio nacional\u201d<\/em>, acrescenta o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Infelizmente, o Instituto \u00e9 um dos poucos os centros brasileiros dedicado ao estudo dos canabin\u00f3ides e das subst\u00e2ncias psicod\u00e9licas em geral, considerando o potencial terap\u00eautico dessas subst\u00e2ncias. Segundo a Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), as evid\u00eancias cient\u00edficas apontam que pacientes com esclerose m\u00faltipla, depress\u00e3o, doen\u00e7a de Parkinson e transtorno de ansiedade, poderiam se beneficiar dos canabinoides.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos principais motivos para isso, segundo Claudio Queiroz, continua sendo a quest\u00e3o legal e suas barreiras que dificultam o acesso dos pesquisadores a essas subst\u00e2ncias. Outro aspecto, na vis\u00e3o do neurocientista, \u00e9 o total desconhecimento das pessoas \u2013 principalmente profissionais de sa\u00fade \u2013 em rela\u00e7\u00e3o ao potencial dessa planta e seus derivados.&nbsp;<em>\u201cPor ser uma \u00e1rea de investiga\u00e7\u00e3o recente, poucos ouviram falar do sistema endocanabin\u00f3ide durante a sua forma\u00e7\u00e3o e, comumente, tratam o assunto com pouca seriedade, muitas vezes com preconceito ou com vis\u00e3o distorcida sobre os potenciais das subst\u00e2ncias psicod\u00e9licas na sa\u00fade\u201d<\/em>, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A autoriza\u00e7\u00e3o de registro de medicamentos produzidos com cannabis pela Anvisa \u00e9 uma pequena vit\u00f3ria numa luta que se arrasta h\u00e1 anos, mas como o plantio continua proibido no Brasil, os grupos de pesquisa continuam dependendo de insumos produzidos l\u00e1 fora, muitas vezes a pre\u00e7os muito altos. Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso uma autoriza\u00e7\u00e3o especial da Anvisa para realizar pesquisa e inova\u00e7\u00e3o com a cannabis. Quem ganha com essa burocracia s\u00e3o as empresas de representa\u00e7\u00e3o que come\u00e7aram a se instalar por aqui para aproveitar o grande mercado que se abre e fortalecer as empresas e institui\u00e7\u00f5es de pesquisas estrangeiras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O receio de Claudio \u00e9 que a demora do Brasil em perceber o que EUA, Canad\u00e1 e pa\u00edses da Europa j\u00e1 perceberam o fa\u00e7a ficar para tr\u00e1s. \u201c<em>Enquanto l\u00e1 fora permitem o acesso a essas subst\u00e2ncias, assim como a todo um conjunto de equipamentos e insumos espec\u00edficos para realizar esse tipo de pesquisa, aqui, al\u00e9m de n\u00e3o termos financiamento, ainda temos os entraves legais. Assim, corremos o risco de ficarmos para tr\u00e1s nessa corrida em busca do uso de psicod\u00e9licos em sa\u00fade. Minha preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 que essa diferen\u00e7a s\u00f3 cres\u00e7a a ponto de, no futuro, n\u00e3o sermos mais capazes de alcan\u00e7ar o resto do mundo\u201d,<\/em>&nbsp;pondera.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ayahuasca<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Claudio Queiroz n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico a pesquisar os psicod\u00e9licos na UFRN. O Centro de Bioci\u00eancias (CB) tamb\u00e9m tem testado o efeito de algumas subst\u00e2ncias em mais de um tipo de modelo animal. No Instituto do C\u00e9rebro mesmo, os laborat\u00f3rios dos neurocientistas Rodrigo Romcy Pereira e Katarina Le\u00e3o demonstram interesse na pesquisa com a cannabis. Recentemente, o laborat\u00f3rio de Richardson Le\u00e3o realizou experimentos com a dimetiltriptamina (DMT) e o vice-diretor do ICe, Sidarta Ribeiro, apresentou resultados com o uso de Dietilamida do \u00c1cido Lis\u00e9rgico (LSD).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro estudo em destaque no ICe envolve a ayahuasca. Conhecida popularmente como \u201cch\u00e1 do santo daime\u201d, essa infus\u00e3o, feita a partir de uma combina\u00e7\u00e3o do cip\u00f3 jagube e o arbusto chacrona, duas plantas amaz\u00f4nicas, \u00e9 uma bebida utilizada para fins de cura e rituais espirituais pelas popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, mas seus efeitos foram comprovados com muita efici\u00eancia na redu\u00e7\u00e3o dos sintomas da depress\u00e3o e at\u00e9 no risco de suic\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.saibamais.jor.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Dra%CC%81ulio-Arau%CC%81jo-e-Fernanda-Palhano_pesquisa-com-ayahuasca.jpg?resize=940%2C627&amp;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-23121\"\/><figcaption>Os neurocientistas Dr\u00e1ulio Ara\u00fajo e Fernanda Palhano realizam pesquisa com Ayahuasca (foto: divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pesquisa, que vem sendo desenvolvida desde 2006 pelo laborat\u00f3rio Neuroimagem Funcional, coordenado por Dr\u00e1ulio Ara\u00fajo, demonstra que a idea\u00e7\u00e3o suicida dos pacientes estudados diminuiu j\u00e1 no primeiro dia ap\u00f3s o uso da ayahuasca, se mantendo baixo at\u00e9 sete dias ap\u00f3s a interven\u00e7\u00e3o. Em tratamentos convencionais, esse efeito come\u00e7a a aparecer depois de no m\u00ednimo 15 dias e n\u00e3o se mant\u00e9m sem novas doses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Dr\u00e1ulio Ara\u00fajo, a maior parte dos estudos entende que talvez subst\u00e2ncias psicod\u00e9licas possam ser arriscadas, mas o que se observa \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio. \u201cEmbora seja um dado preliminar, al\u00e9m de n\u00e3o aumentar o risco de suic\u00eddio, o uso da 7 oferece melhoras significativas aos pacientes estudados. Nenhum deles piorou dos sintomas de depress\u00e3o ou do n\u00edvel de suicidalidade\u201d, refor\u00e7a o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LSD<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.saibamais.jor.br\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/Sidarta-Ribeiro_Pesquisa-com-LSD.jpg?resize=940%2C627&amp;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-23119\"\/><figcaption>O neurocientista Sidarta Ribeiro confirmou em pesquisa que o LSD tem efici\u00eancia contra perda de mem\u00f3ria (foto: divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos neurocientistas em evid\u00eancia no Brasil, Sidarta Ribeiro \u00e9 conhecido por suas pesquisas envolvendo sono, sonho e mem\u00f3ria. Mas ele \u00e9 tamb\u00e9m um defensor das pesquisas com psicod\u00e9licos, principalmente a cannabis, e tem apresentado diversos estudos que comprovam os efeitos ben\u00e9ficos dessas subst\u00e2ncias. No final do ano passado, ele colaborou em um artigo que demonstrou que o LSD tem efici\u00eancia contra a perda de mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Testes realizados em ratos jovens, adultos e velhos, a partir de prote\u00edna produzida em organoides cerebrais (mini c\u00e9rebros) submetida ao \u00e1cido, concluiu que houve melhora no aprendizado gra\u00e7as ao aumento das sinapses. Coordenada por Sidarta e pelo neurocientista Stevens\u2002Rehen, da UFRJ, a pesquisa mostra que roedores jovens e adultos tiveram melhor desempenho quando submetidos a doses de LSD antes das tarefas. Nos ratos mais velhos, o resultado foi melhor quando foram expostos a ambientes com objetos novos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O aumento de novas conex\u00f5es neuronais \u00e9 essencial para a fixa\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria e da cogni\u00e7\u00e3o, por consequ\u00eancia. A perda de mem\u00f3ria tem liga\u00e7\u00e3o com a idade e com doen\u00e7as neurodegenerativas, e o estudo mostra que o LSD ajuda a estimular o aprendizado. Al\u00e9m disso, a pesquisa mapeia as vias metab\u00f3licas subjacentes a tal efeito e mostra, pela primeira vez, que o \u00e1cido modula prote\u00ednas sin\u00e1pticas em neur\u00f4nios humanos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da Ag\u00eancia Saiba Mais A Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa) anunciou na quarta-feira (22) que simplificou a importa\u00e7\u00e3o de medicamentos \u00e0 base de canabidiol, subst\u00e2ncia qu\u00edmica encontrada na maconha e usada em tratamento de sa\u00fade. A decis\u00e3o desobriga a necessidade de laudo m\u00e9dico e facilita a compra desse tipo de componente usando apenas a prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. 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