{"id":1772,"date":"2019-12-06T18:06:59","date_gmt":"2019-12-06T21:06:59","guid":{"rendered":"http:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/?p=1772"},"modified":"2019-12-23T10:00:59","modified_gmt":"2019-12-23T13:00:59","slug":"cientista-nordestina-une-computacao-e-psiquiatria-para-acelerar-diagnostico-de-esquizofrenia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/2019\/12\/06\/cientista-nordestina-une-computacao-e-psiquiatria-para-acelerar-diagnostico-de-esquizofrenia\/","title":{"rendered":"Cientista nordestina une computa\u00e7\u00e3o e psiquiatria para acelerar diagn\u00f3stico de esquizofrenia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>POR HELENA BERTHO &#8211;  <a href=\"https:\/\/revistamarieclaire.globo.com\/Mulheres-do-Mundo\/noticia\/2019\/12\/cientista-nordestina-une-computacao-e-psiquiatria-para-acelerar-diagnostico-de-esquizofrenia.html\">REVISTA AZMINA<\/a><\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, o diagn\u00f3stico de transtornos mentais \u00e9 feito com base na observa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica de um m\u00e9dico de um conjunto de sinais apresentados pelos pacientes durante um per\u00edodo. O tempo que se leva para fechar um diagn\u00f3stico \u00e9, em m\u00e9dia, de dois anos. Per\u00edodo esse em que a falta de um diagn\u00f3stico e tratamento adequado pode ter danos mentais e impactos sociais na vida do paciente. Mas esse prazo pode ser reduzido drasticamente com o trabalho da neurocientista e psiquiatra cearense&nbsp;<strong>Natalia Mota<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em sua pesquisa de p\u00f3s-doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), ela desenvolveu um programa de computador que mede a organiza\u00e7\u00e3o do pensamento por meio da fala e, assim, consegue diagnosticar esquizofrenia a partir da an\u00e1lise de apenas 30 segundos de discurso do paciente. Tudo isso com 90% de precis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O programa ainda est\u00e1 em fase de testes, mas gra\u00e7as a ele Natalia foi a primeira brasileira e \u00fanica sul-americana indicada ao pr\u00eamio Nature Research Award de 2019, na categoria Ci\u00eancia Inspiradora. O pr\u00eamio \u00e9 promovido por uma das publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas mais respeitadas do mundo e Natalia concorreu ao lado de outras nove cientistas do mundo todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesta entrevista, Natalia, que fundou o Sci-Girls, um grupo de mulheres cientistas, conta da sua pesquisa e tamb\u00e9m da import\u00e2ncia do pr\u00eamio para ela e outras cientistas. \u201cA mulher tem um papel muito singular na ci\u00eancia, justamente por trilhar o caminho mais dif\u00edcil. Isso faz a gente criar solu\u00e7\u00f5es de baixo custo, mais f\u00e1ceis e mais \u00fateis para a sociedade. Fazer ci\u00eancia que realmente tem impacto.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Natalia tamb\u00e9m falou sobre o impacto dos recentes cortes de investimento em educa\u00e7\u00e3o e pesquisa realizados pelo governo. \u201cA situa\u00e7\u00e3o do Brasil \u00e9 urgente. O mundo todo est\u00e1 sabendo, recebi convites de v\u00e1rias pessoas para sair do pa\u00eds.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>AzMina: Qual o benef\u00edcio social do seu projeto?<br>Natalia:<\/strong>&nbsp;Primeiro, combater o preconceito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 esquizofrenia e entender que ela faz parte do comportamento humano. N\u00e3o \u00e9 uma coisa s\u00f3 de um grupo de pessoas, que as torna diferentes. Somos todos iguais, mas uns funcionam de um jeito, outros funcionam de outro. Se a gente for botar uma r\u00e9gua, com v\u00e1rias grada\u00e7\u00f5es, ningu\u00e9m se encaixa em nada. Outro benef\u00edcio \u00e9 poder agir precocemente, para que as pessoas n\u00e3o esperem dois anos por um diagn\u00f3stico de esquizofrenia, que \u00e9 a m\u00e9dia de tempo hoje em dia para fechar um diagn\u00f3stico. Passar dois anos perdendo cogni\u00e7\u00e3o, sofrendo, sem nem saber o que tem, \u00e9 muito sofrimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Esse diagn\u00f3stico precoce evita a perda de cogni\u00e7\u00e3o?<\/strong><br>Voc\u00ea pode planejar a\u00e7\u00f5es, principalmente de reabilita\u00e7\u00e3o social. O que mais se deve cuidar nessas fases precoces, do aparecimento dos primeiros sintomas, \u00e9 que a pessoa n\u00e3o perca seus la\u00e7os sociais, que ela continue frequentando os lugares, que ela se sinta acolhida. \u00c9 importante fazer essa rede de interconex\u00e3o entre a fam\u00edlia, a escola, os ambientes em que elas circulam, para que acolham o sujeito. Se ele n\u00e3o se sentir acolhido, ele vai perder facilmente os la\u00e7os no momento que mais precisa deles. \u00c9 s\u00f3 no contraste com a realidade que ele vai poder ver emergir essa autocr\u00edtica e aliviar um pouco o sofrimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Imagina que voc\u00ea est\u00e1 pensando que est\u00e1 todo mundo te perseguindo, querendo te fazer mal. Se voc\u00ea se isola, a\u00ed \u00e9 que vai ter certeza. \u00c9 s\u00f3 indo l\u00e1 e perguntando: \u2018fulaninha, voc\u00ea quer me fazer mal?\u2019 e ela falando que n\u00e3o\u2026 \u00c9 desse jeito que voc\u00ea quebra o preconceito e permite que a pessoa se ressocialize. Mas \u00e9 uma conversa complicada. Voc\u00ea chega para o sujeito e d\u00e1 a oportunidade para ele para que ele tenha um par\u00e2metro mais palp\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Voc\u00ea pode explicar sua pesquisa que foi indicada ao pr\u00eamio?<\/strong><br>Hoje em dia, temos computadores muito potentes, que permitem fazer an\u00e1lises inimagin\u00e1veis h\u00e1 algumas d\u00e9cadas. A ideia da pesquisa foi trazer esse poder computacional, aliado \u00e0 precis\u00e3o matem\u00e1tica, para o campo da psiquiatria. O psiquiatra \u00e9 treinado para perceber os sintomas na rela\u00e7\u00e3o com o sujeito, ent\u00e3o a quest\u00e3o era: como a gente pode medir esses sintomas de uma maneira objetiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde as primeiras descri\u00e7\u00f5es da esquizofrenia, os m\u00e9dicos perceberam que algumas pessoas t\u00eam alucina\u00e7\u00f5es e del\u00edrios e, com isso, tinham um decl\u00ednio cognitivo, muitas vezes at\u00e9 chegar a dem\u00eancia mesmo. Enquanto outras pessoas tamb\u00e9m apresentavam alucina\u00e7\u00f5es e del\u00edrios, mas conseguiam manter a vida, apresentando s\u00f3 varia\u00e7\u00f5es de humor, o que foi caracterizado depois como psicose man\u00edaco-depressiva ou transtorno bipolar. Ent\u00e3o a ideia era entender como pod\u00edamos prever o futuro da pessoa logo no in\u00edcio dos sintomas. Ver se ela vai perder a cogni\u00e7\u00e3o e o la\u00e7o social, para saber como ajudar e prevenir danos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"617\" height=\"411\" src=\"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Nat2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1783\" srcset=\"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Nat2.png 617w, https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Nat2-300x200.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 617px) 100vw, 617px\" \/><figcaption> <em>\u201cAs dificuldades fazem mulheres criarem solu\u00e7\u00f5es de baixo custo, mais f\u00e1ceis, mais \u00fateis pra sociedade. Fazer ci\u00eancia que realmente tem impacto\u201d (Foto: Rebeca Figueiredo)<\/em> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E voc\u00eas criaram um programa para isso. Como \u00e9 que ele funciona?<\/strong><br>Existe uma s\u00e9rie de sintomas&nbsp;<em>[da esquizofrenia]<\/em>&nbsp;chamados de desordens da forma do pensamento, que se mostra na dificuldade que o sujeito tem de organizar a fala. Mas como \u00e9 que a gente mede isso? V\u00e1rios sintomas que predizem a esquizofrenia t\u00eam a ver com essa quebra de trajet\u00f3ria. Quando algu\u00e9m diz que \u2018estava com um discurso descarrilado\u2019, ou seja, estava com o discurso que saiu dos trilhos. Ou \u2018est\u00e1 com o discurso fragmentado, quebrado\u2019. At\u00e9 chegar no ponto do paciente cr\u00f4nico, que voc\u00ea percebe que est\u00e1 soltando as palavras ali aleatoriamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tem um ramo da matem\u00e1tica que chama teoria dos grafos, uma teoria que tem centenas de anos e est\u00e1 na base de v\u00e1rias tecnologias que a gente usa hoje em dia, como a rede da internet, por exemplo. O grafo estuda as rela\u00e7\u00f5es entre os objetos de um determinado conjunto. Os elementos s\u00e3o representados por \u2018n\u00f3s\u2019 e as rela\u00e7\u00f5es entre esses n\u00f3s s\u00e3o representadas por links ou arestas. Na pesquisa, eu decidi colocar a trajet\u00f3ria de palavras num grafo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o cada palavra diferente \u00e9 um nozinho e a sequ\u00eancia de palavras \u00e9 a seta entre elas. A maneira como elas se repetem espontaneamente no discurso \u00e9 que vai dizer se aquele grafo vai ser mais ou menos conectado, medindo o n\u00edvel de desordem no sistema de pensamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>\u00c9 o programa de computador que faz essa an\u00e1lise?<\/strong><br>Sim, o nome do programa \u00e9 SpeechGraph e foi desenvolvido em linguagem Java. Ele est\u00e1 dispon\u00edvel no nosso site, quem quiser baixar e brincar com ele, pode baixar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como voc\u00ea usa o programa?<\/strong><br>Eu pe\u00e7o para as pessoas me contarem um sonho ou uma imagem negativa. Porque num relato de sonho apenas, de 30 segundos, o programa j\u00e1 consegue dizer com bastante acur\u00e1cia quem tem esquizofrenia e quem n\u00e3o tem. Isso desde os primeiros sintomas. Durante a pesquisa, entrevistei adolescentes que estavam passando por surtos psic\u00f3ticos pela primeira vez e os acompanhei com uma equipe multidisciplinar por seis meses. S\u00f3 depois que a gente estabeleceu o diagn\u00f3stico de maneira tradicional, por observa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, eu comecei a fazer as an\u00e1lises com o programa e constatei que naquela primeira entrevista l\u00e1 tr\u00e1s, depois do primeiro surto, em um minuto de discurso, j\u00e1 predizia o diagn\u00f3stico que levamos seis meses para conseguir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Com o programa \u00e9 poss\u00edvel prever um surto?<\/strong><br>N\u00e3o. Uma analogia legal para entender \u00e9 um hemograma. Voc\u00ea est\u00e1 com febre, dor de cabe\u00e7a, nariz escorrendo e n\u00e3o sabe dizer se \u00e9 alergia, v\u00edrus ou bact\u00e9ria. No pronto socorro, pedem um exame de sangue. O que a gente v\u00ea no resultado do exame \u00e9 um par\u00e2metro para contar essas c\u00e9lulas. No programa, a gente sabe o que contar, o que olhar. E tem uns valores de refer\u00eancia, mas baseados ainda numa popula\u00e7\u00e3o pequena, que foram as pessoas que eu entrevistei. A partir desses par\u00e2metros, eu posso dizer se voc\u00ea tem um conjunto de par\u00e2metros parecidos com uma classe ou com outra de pessoas. S\u00f3 baseada nesses dados de conectividade a gente consegue dizer se aquele relato veio de uma pessoa controle [usada como base de compara\u00e7\u00e3o], de uma pessoa com esquizofrenia ou de uma pessoa bipolar, com mais de 90% de acur\u00e1cia. Praticamente n\u00e3o erra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Essa pesquisa j\u00e1 est\u00e1 sendo usada como cl\u00ednica?<\/strong><br>N\u00e3o. Precisamos estudar uma popula\u00e7\u00e3o maior. Como refer\u00eancia, eu tenho um n\u00famero limitado de participantes, em torno de uns 70 sujeitos que tinham a patologia, que tinham psicose. N\u00e3o d\u00e1 pra dizer que todas as pessoas do mundo que t\u00eam psicose t\u00eam esse padr\u00e3o. A gente j\u00e1 validou o teste em popula\u00e7\u00f5es diferentes, validamos recentemente em ingl\u00eas tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quais s\u00e3o os pr\u00f3ximos passos?<\/strong><br>A gente se preocupou como pode haver um mau uso desse tipo de diagn\u00f3stico f\u00e1cil e levar \u00e0 patologiza\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es. Porque outras situa\u00e7\u00f5es sociais tamb\u00e9m podem impactar a fala, ent\u00e3o a gente poderia come\u00e7ar a diagnosticar analfabetismo ou dificuldade de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o como esquizofrenia. Ser\u00e1 que a pessoa que n\u00e3o teve letramento vai falar com a mesma conectividade, com a mesma eloqu\u00eancia, com a mesma quantidade de informa\u00e7\u00f5es que uma pessoa da mesma idade que teve acesso a educa\u00e7\u00e3o? Para entender isso, a gente foi atr\u00e1s de saber como \u00e9 o desenvolvimento t\u00edpico das conex\u00f5es na fala. Agora, estamos aplicando a pesquisa a novos grupos de pessoas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Voc\u00ea foi indicada ao pr\u00eamio da Nature por essa pesquisa. O que acha da exist\u00eancia de um pr\u00eamio s\u00f3 para mulheres?<\/strong><br>Eu fiquei super feliz, animada, me deu um g\u00e1s extra. A gente vem sofrendo muitas perdas com o atual governo: cortes, perda de bolsa de aluno, gente muito talentosa desistindo da carreira. No dia a dia, isso mina sua energia de trabalhar. Al\u00e9m disso, a gente tem um grupo no laborat\u00f3rio [Sono, Sonhos e Mem\u00f3ria, da UFRN], o Sci-Girls, que \u00e9 uma reuni\u00e3o s\u00f3 de mulheres e tamb\u00e9m um grupo de terapia. A gente senta para discutir o que est\u00e1 acontecendo. E s\u00e3o quest\u00f5es que v\u00e3o desde&nbsp; \u201ceu acho que n\u00e3o vou aprender matem\u00e1tica\u201d, ou ent\u00e3o \u201ceu cheguei num lugar e notei que a galera n\u00e3o tava dando cr\u00e9dito para o meu trabalho, sempre achava que era o segundo autor, ou terceiro autor\u201d, at\u00e9 coisas mais de dia a dia mesmo, por exemplo: \u201ceu n\u00e3o sei como eu fa\u00e7o minha sogra entender que eu tenho que trabalhar, que eu n\u00e3o posso ficar em casa o dia inteiro com o meu filho\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mulher tem um papel muito singular na ci\u00eancia, justamente por ter esse caminho mais dif\u00edcil. Quando ela persiste nisso, ela desenvolve muita criatividade e maneiras de lidar com essa comunica\u00e7\u00e3o, de entender como \u00e9 mais importante ter essa sensibilidade de entender essas dificuldades na carreira, sabe? Isso faz a gente criar solu\u00e7\u00f5es de baixo custo, mais f\u00e1ceis, mais \u00fateis pra sociedade. Fazer ci\u00eancia que realmente tem impacto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acho que quando tem uma premia\u00e7\u00e3o assim \u00e9 para melhorar a autoestima de um grupo de pessoas e dizer \u201cteu ponto de vista \u00e9 importante\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Voc\u00ea mencionou as perdas que est\u00e3o tendo com o atual governo. Como os cortes impactaram o trabalho de voc\u00eas?<\/strong><br>Est\u00e1 todo mundo super assustado, com medo inclusive de persegui\u00e7\u00e3o, pessoal e f\u00edsica. Foi uma guinada muito forte, com um discurso pol\u00edtico de enfraquecimento da ci\u00eancia, colocando a ci\u00eancia como um inimigo. N\u00e3o s\u00f3 a ci\u00eancia, mas todo o movimento intelectualizado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E isso \u00e9 um tiro no p\u00e9, porque n\u00e3o h\u00e1 pa\u00eds que se desenvolva economicamente sem ci\u00eancia. O que a gente fez aqui foi alimentar uma comunidade que come\u00e7ou a gerar frutos. E o que est\u00e1 acontecendo? Eles est\u00e3o indo embora. A gente t\u00e1 arrancando as \u00e1rvores do p\u00e9 e distribuindo pro mundo. Isso vai impactar a economia desses outros pa\u00edses positivamente. V\u00e1rios c\u00e9rebros v\u00e3o fugir para os Estados Unidos, desenvolver e criar solu\u00e7\u00f5es l\u00e1, movimentar a economia l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Voc\u00eas perderam pesquisadores?<\/strong><br>Sim, v\u00e1rios alunos. No Nordeste, as universidades cresceram tanto e ficaram t\u00e3o diversas, t\u00e3o coloridas. E s\u00e3o pessoas que n\u00e3o t\u00eam uma gera\u00e7\u00e3o que veio antes. A ci\u00eancia no Brasil ainda tem disso: \u00e9 um pouco aristocr\u00e1tica, de fam\u00edlias, de pessoas que investiram, que n\u00e3o precisam trabalhar para sobreviver. O Nordeste n\u00e3o tinha tradi\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia. A ci\u00eancia que surgiu aqui \u00e9 de gente que quer fazer, que quer trabalhar, quer produzir a partir daqui e tira seu sustento daqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o pessoas que precisam de incentivo, que t\u00eam muita garra pra fazer e t\u00eam uma cultura de trabalho de muita resist\u00eancia e criatividade. Eu vejo alunos empolgados, que falam: \u201cCaraca, \u00e9 minha oportunidade! N\u00e3o s\u00f3 minha, \u00e9 da minha fam\u00edlia\u201d. \u00c9 de quebrar essa tradi\u00e7\u00e3o de subemprego para ter um emprego massa. Ent\u00e3o o aluno vem com toda essa autoestima e chega l\u00e1 e n\u00e3o tem bolsa, n\u00e3o tem como sobreviver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Voc\u00ea acredita ser importante ter no Brasil e no Nordeste pesquisadores locais trabalhando em contextos locais?<\/strong><br>Com certeza. Quem \u00e9 que vai limpar o \u00f3leo da praia? Quem \u00e9 que vai assegurar se os peixes que a gente est\u00e1 consumindo agora, esse m\u00eas, t\u00eam seguran\u00e7a para serem consumidos? Quem \u00e9 que vai ver o impacto do hidrocarboneto que penetrou no manguezal? E quem \u00e9 que vai criar a solu\u00e7\u00e3o para filtrar esse \u00f3leo para voltar a crescer a ca\u00e7a de cultura l\u00e1? Eu duvido que saia do centro-oeste, de Bras\u00edlia essa solu\u00e7\u00e3o, n\u00e9? N\u00e3o me parece haver muito esfor\u00e7o para que essa solu\u00e7\u00e3o saia de l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse problema \u00e9 nosso. Do mesmo jeito que a zika \u00e9 problema nosso. Epidemias de dengue s\u00e3o problemas nosso. Como \u00e9 que a gente ainda n\u00e3o controla o Aedes aegypt? Como \u00e9 que a gente v\u00ea voltar o crescimento da mortalidade infantil? Isso \u00e9 problema nosso como sociedade. L\u00f3gico, tem toda uma quest\u00e3o de decis\u00e3o pol\u00edtica. Mas vai al\u00e9m disso. N\u00e3o adianta a gente ter bons representantes se a gente n\u00e3o tem uma massa de pesquisadores que queiram e que trabalhem aqui para fazer ci\u00eancia aqui.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>*Essa entrevista foi originalmente publicada na&nbsp;<a href=\"http:\/\/https\/\/azmina.com.br\/reportagens\/cientista-nordestina-une-computacao-e-psiquiatria-para-acelerar-diagnostico-de-esquizofrenia\/\">Revista AzMina<\/a>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>POR HELENA BERTHO &#8211; REVISTA AZMINA Hoje, o diagn\u00f3stico de transtornos mentais \u00e9 feito com base na observa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica de um m\u00e9dico de um conjunto de sinais apresentados pelos pacientes durante um per\u00edodo. O tempo que se leva para fechar um diagn\u00f3stico \u00e9, em m\u00e9dia, de dois anos. 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