{"id":1663,"date":"2019-03-25T13:19:42","date_gmt":"2019-03-25T16:19:42","guid":{"rendered":"http:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/?p=1663"},"modified":"2019-03-25T13:22:46","modified_gmt":"2019-03-25T16:22:46","slug":"a-proteina-da-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/index.php\/2019\/03\/25\/a-proteina-da-memoria\/","title":{"rendered":"A PROTE\u00cdNA DA MEM\u00d3RIA"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Pesquisa do\u00a0Laborat\u00f3rio de Pesquisas em Mem\u00f3ria\u00a0do Instituto do C\u00e9rebro da UFRN mostrou que a inibi\u00e7\u00e3o da prote\u00edna PKMzeta\u00a0impede a atualiza\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias\u00a0de reconhecimento\u00a0em ratos. O trabalho abre uma importante janela para\u00a0o tratamento da perda cognitiva associada a doen\u00e7as neurodegenerativa como o Alzheimer.<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">E se pud\u00e9ssemos apagar lembran\u00e7as ruins ou recuperar informa\u00e7\u00f5es perdidas no nosso c\u00e9rebro? Este \u00e9 assunto antigo nas rodas de conversa dos apaixonados por fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e pauta para alguns filmes desta linha. Mas a verdade \u00e9 que a ci\u00eancia j\u00e1 tem estudos conclusivos e provas concretas de que isso \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Novo estudo desenvolvido pelo\u00a0Laborat\u00f3rio Pesquisa em Mem\u00f3rias do Instituto do C\u00e9rebro (ICe) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), coordenado pelos neurocientistas Mart\u00edn Cammarota e Lia Bevilaqua, demonstra que \u00e9 poss\u00edvel bloquear especificamente a incorpora\u00e7\u00e3o de nova informa\u00e7\u00e3o em mem\u00f3rias pr\u00e9-existentes, como tamb\u00e9m apagar seletivamente mem\u00f3rias recentemente utilizadas em ratos. O trabalho foi publicado no\u00a0<a href=\"http:\/\/www.jneurosci.org\/content\/39\/10\/1828\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/www.jneurosci.org\/content\/39\/10\/1828&amp;source=gmail&amp;ust=1553598856046000&amp;usg=AFQjCNGtMTnpxv-oEQzoxccDVizioLltgQ\">JNeuroscience<\/a>\u00a0deste m\u00eas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Isso foi poss\u00edvel gra\u00e7as a inibi\u00e7\u00e3o da prote\u00edna PKMzeta, uma prote\u00edna quinase que atua no fortalecimento das sinapses cerebrais, principalmente no hipocampo, e tem como fun\u00e7\u00e3o modular a efic\u00e1cia da comunica\u00e7\u00e3o entre neur\u00f4nios.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Os pesquisadores estudaram um tipo particular de mem\u00f3ria declarativa, chamada de mem\u00f3ria de reconhecimento de objetos (MRO), cujo funcionamento \u00e9 essencial para nosso dia a dia, j\u00e1 que nos permite reconhecer objetos conhecidos e distingui-los de outros incomuns ou n\u00e3o familiares.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Dois pontos foram considerados neste novo estudo: como as mem\u00f3rias se modificam e como \u00e9 poss\u00edvel alterar a durabilidade dessas mem\u00f3rias ap\u00f3s elas perderem ou adicionarem novas informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Os resultados\u00a0demostram\u00a0que ao impedir o funcionamento normal da PKMzeta\u00a0no hipocampo\u00a0\u00e9 poss\u00edvel fazer com que um rato seja incapaz de incorporar informa\u00e7\u00f5es de um objeto novo em mem\u00f3ria pr\u00e9-existentes, conduzindo assim ao apagamento seletivo da mem\u00f3ria de um objeto j\u00e1 conhecido que acaba de ser reexperimentado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u201cO rato n\u00e3o perde a mem\u00f3ria de todos os objetos que conhecia, mas unicamente \u00e0quela acerca do \u00faltimo objeto conhecido do qual lembrou antes da inibi\u00e7\u00e3o da PKMzeta. O interessante \u00e9 que isso acontece apenas quando o objeto conhecido \u00e9 lembrado na presen\u00e7a de um novo, totalmente desconhecido para o animal\u201d, explica o professor Mart\u00edn Cammarota.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Suponhamos que um rato conhecesse um total de cinco objetos e, junto com um deles for apresentado um sexto objeto at\u00e9 ent\u00e3o desconhecido. Ao impedir o funcionamento da PKMzeta no hipocampo ap\u00f3s essa apresenta\u00e7\u00e3o, o rato n\u00e3o ser\u00e1 apenas incapaz de formar a mem\u00f3ria deste novo item, mas tamb\u00e9m esquecer\u00e1 do objeto conhecido que foi reapresentado junto. A mem\u00f3ria referente aos outros quatro objetos permanecer\u00e1 inalterada.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m disso, os pesquisadores demonstraram que a amn\u00e9sia induzida pela inibi\u00e7\u00e3o da PKMzeta leva ao desaparecimento f\u00edsico do tra\u00e7o mnem\u00f4nico que sustenta a representa\u00e7\u00e3o do objeto conhecido. Ou seja, para readquirir a memoria relativa a esse objeto o animal dever\u00e1 obrigatoriamente reaprend\u00ea-la.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u201cEstes achados contribuem notavelmente para o entendimento dos fatores que governam a persist\u00eancia e a modifica\u00e7\u00e3o das mem\u00f3rias declarativas e abrem uma janela promissora para o tratamento efetivo de doen\u00e7as e transtornos que cursam com um not\u00f3rio deterioro deste tipo de mem\u00f3rias, como \u00e9 o caso da doen\u00e7a de Alzheimer\u201d, completou Mart\u00edn Cammarota.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1664\" aria-describedby=\"caption-attachment-1664\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1664 size-full\" src=\"http:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/IMG_4628.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/IMG_4628.jpg 1024w, https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/IMG_4628-300x200.jpg 300w, https:\/\/neuro.ufrn.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/IMG_4628-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1664\" class=\"wp-caption-text\">Pesquisadoras Maria Caroline Gonzales e Andressa Radiske demonstram como s\u00e3o observados os modelos animais usados na pesquisa<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Caminhos para novas pesquisas<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Da mesma forma que a amn\u00e9sia, que \u00e9 a perda de mem\u00f3ria, preocupa a medicina, pois dela adv\u00e9m doen\u00e7as como o Alzheimer, a hipermn\u00e9sia, capacidade fora do comum de evocar lembran\u00e7as, tamb\u00e9m inquieta, uma vez que gera ansiedade e dificuldade de adapta\u00e7\u00e3o dos pacientes.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ambos os casos s\u00e3o motivos de estudos h\u00e1 anos, muitos deles aplicados. O trabalho do\u00a0Laborat\u00f3rio de Pesquisas em Mem\u00f3ria do<em>\u00a0<\/em>Instituto do C\u00e9rebro est\u00e1 no campo da pesquisa b\u00e1sica, cujo objetivo \u00e9 conhecer a\u00a0neurofisiologia e a\u00a0neuroqu\u00edmica dos processos que subjazem\u00a0o processamento, modifica\u00e7\u00e3o e armazenamento de informa\u00e7\u00e3o. \u201cA fisiologia precede a patologia. N\u00e3o se pode restituir a funcionalidade normal de um \u00f3rg\u00e3o\u00a0ou sistema danificado\u00a0se n\u00e3o\u00a0a conhecermos\u201d, destaca Mart\u00edn.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 por isso que a nova descoberta abre uma janela promissora para o tratamento efetivo de doen\u00e7as como o Alzheimer, problema que atinge 47 milh\u00f5es de pacientes em todo o mundo. Neste caso espec\u00edfico, segundo Mart\u00edn, um dos sintomas que\u00a0aparece\u00a0mais cedo \u00e9 a perca das mem\u00f3rias referentes ao reconhecimento de situa\u00e7\u00f5es e itens corriqueiros.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u201cAs pessoas come\u00e7am a esquecer das coisas e situa\u00e7\u00f5es que viveram e passam a confundir ou misturar nomes, circunst\u00e2ncias e objetos. Conhecer as bases cognitivas, moleculares e eletrofisiol\u00f3gicas dos processos que sustentam este tipo de mem\u00f3rias, permitindo sua modifica\u00e7\u00e3o, fortalecimento ou apagamento seletivo \u00e9 imprescind\u00edvel para desenvolver terapias visando o tratamento efetivo de numerosas doen\u00e7as\u201d, completa o cientista.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ainda segundo Mart\u00edn, da mesma forma que se pode fazer com que um rato esque\u00e7a seletivamente um objeto \u00e9 poss\u00edvel fazer com que ele lembre melhor ou durante mais tempo dele. \u00c9 essa perspectiva que abre possibilidades de estudos futuros sobre dem\u00eancias como o Alzheimer.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>O estudo da PKMzeta<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Os primeiros estudos relevantes sobre esta prote\u00edna come\u00e7aram a ser divulgados em 1993, pela equipe do cientista Todd Sacktor, do Suny Downstate Medical Center, em Nova York. Ele criou a mol\u00e9cula pept\u00eddeo zeta-inibidor (ZIP) que age como um bloqueador da PKMzeta, com objetivo de apagar mem\u00f3rias de longo prazo em ratos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A proposta deu certo, mas em 2013, pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, nos EUA, criaram modelos de ratos sem esta prote\u00edna e descobriram que, mesmo assim, eles continuaram formando mem\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O estudo do Laborat\u00f3rio de Pesquisas em Mem\u00f3ria corrobora que a inibi\u00e7\u00e3o da PKMzeta \u00e9 amn\u00e9sica, mas demonstra que, diferente do que disse Sacktor, esta prote\u00edna n\u00e3o participa dos processos de forma\u00e7\u00e3o e armazenamento de novas mem\u00f3rias, mas atua especificamente mediando a incorpora\u00e7\u00e3o de nova informa\u00e7\u00e3o em mem\u00f3rias pr\u00e9-existentes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisa do\u00a0Laborat\u00f3rio de Pesquisas em Mem\u00f3ria\u00a0do Instituto do C\u00e9rebro da UFRN mostrou que a inibi\u00e7\u00e3o da prote\u00edna PKMzeta\u00a0impede a atualiza\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias\u00a0de reconhecimento\u00a0em ratos. O trabalho abre uma importante janela para\u00a0o tratamento da perda cognitiva associada a doen\u00e7as neurodegenerativa como o Alzheimer.\u00a0 E se pud\u00e9ssemos apagar lembran\u00e7as ruins ou recuperar informa\u00e7\u00f5es perdidas no nosso c\u00e9rebro? 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