Instituto do Cérebro e Departamento de Educação Física da UFRN promovem prática esportiva para pessoas em situação de rua

Data da publicação:06/06/2017 00:00:00 BRT

A prática regular de exercícios traz diversos benefícios físicos e mentais, como o fortalecimento dos músculos e a redução de ansiedade, depressão, obesidade e de problemas cardiovasculares, entre outras doenças. Porém, conforme a última pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2015, somente 38,8 milhões de brasileiros praticaram algum esporte e 123 milhões de pessoas eram sedentários, sendo que 91,3 milhões de entrevistados nunca fizeram algum esporte na vida. O estudo também observou uma relação direta entre escolaridade e renda na realização de esportes ou exercícios físicos.

Tendo em vista essa realidade, incentivar a prática de atividades esportivas é uma questão de saúde pública e oferecer oportunidade à população mais carente e com menor nível de escolaridade é prioridade. Nessa perspectiva o “Tecendo Elos de Cooperação entre Esportes e a Rua” (Tecer), projeto da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) realizado pelo Instituto do Cérebro (ICe) e pelo Departamento de Educação Física (DEF) desempenha atividades com o objetivo de realizar cooperação entre o ambiente universitário e as pessoas que estão em situação de vulnerabilidade.

Coordenado pelo professor do ICe-UFRN Sidarta Ribeiro e pelo professor do DEF Patrick Coquerel, a ideia do Tecer é integrar a população de rua nos espaços universitários, aumentando a diversidade de reflexões e da rede de apoio, elementos fundamentais na criação de novas trajetórias de vida. O grupo se reúne nas tardes das segundas-feiras e quartas-feiras, saindo do Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP), indo ao ginásio da UFRN – onde há a prática de vôlei de areia, vôlei de quadra, natação, kung fu, forró, badminton e atletismo – e, finalizando, as atividades ao levar o grupo ao Albergue Público Municipal.

Hoje, o projeto atende cerca de 15 pessoas por encontro e, conta com a colaboração de dez membros entre alunos de graduação e pós-graduação, além de professores de diversas áreas, como Neurociência, Psicologia e Educação Física. De acordo com Bryan Souza, pesquisador do ICe-UFRN e colaborador do Tecer, o projeto está buscando novas parcerias para facilitar a participação de mais pessoas. Para o próximo semestre, a ideia é que o Centro POP forneça alguns cartões de passagem, o que possibilitará a inclusão de esportes em outros horários. “Os cartões, além de dar maior autonomia, facilitariam a inclusão de esportes que estão fora do horário da van, já que atualmente, um carro do ICe-UFRN passa duas vezes por semana para levá-los à universidade”, planeja.

Já a parceria com o Albergue Público Municipal ocorre devido ao horário que o veículo da Universidade retorna para deixar o grupo. “Muitos dormem no albergue e a van acaba chegando depois do horário de entrada. Como no albergue existe uma lista das pessoas que têm entrada garantida, primeiro chamam quem está na relação e depois, se sobrar vagas, outros podem entrar. “Nós avisamos ao coordenador do albergue, Rafael Gonçalves, o nome das pessoas que foram para o projeto e que estão na lista fixa. Então, eles ficam sabendo que estas pessoas estão chegando, mesmo que elas não estejam presentes na hora da chamada, aí não disponibilizam a vaga deles para outra pessoa” explica Bryan.

Outra entidade envolvida é o Coletivo de Olho na Rua (CôRis), idealizado por Bryan e Natália Boccardi, outra colaboradora do Tecer. “Atualmente, o CôRis não é uma entidade formalmente definida, mas a ideia é que um dia vire uma ONG. De toda forma, o coletivo está envolvido desde a elaboração do Tecer e tem financiado lanches e alguns materiais que precisam ser comprados pelo projeto”, detalha Bryan.

O elo de cooperação entre o ambiente universitário e as pessoas que estão em situação de rua é uma alternativa viável para auxiliar sua autonomia e independência, além de combater o estigma existente na sociedade. Para Bryan, o afastamento de contextos de criminalidade e drogadição, a quebra da rotina ociosa e a prática de esportes podem auxiliar na melhoria da qualidade de vida e potencializar a saída do indivíduo da situação de rua.

A ação traz benefícios para os participantes do projeto e para a comunidade universitária que recebe essas pessoas, pois é uma oportunidade de quebrar o tabu que existe sobre a população em situação de rua, que é vista de forma marginalizada pela sociedade. “A primeira vez que o grupo chegou ao Ginásio da UFRN houve um choque de realidade para os dois lados. Boa parte dos participantes nunca havia entrado na Universidade, por outro lado, a comunidade universitária nem sempre está acostumada a receber essas pessoas”, relata Bryan.

P.S.S., 26 anos, pratica vôlei de quadra durante os encontro do projeto de extensão e contou que está em situação de rua desde o Natal de 2016, após uma briga com a família. “Estou sozinho, a única pessoa que ainda fala comigo é minha irmã, mas ela também não quer que eu volte para casa porque escuto vozes e essas vozes pedem para que eu faça coisas ruins. Não sou mais a mesma pessoa que era antes, perdi meu brilho”, disse lembrando do episódio que o afastou dos familiares.

O rapaz falou que ainda não conseguiu vaga no albergue, mas frequenta o Centro POP. “Quando não tenho essa atividade do vôlei, fico no Viaduto do Baldo ou andando pela Cidade Alta sem ter o que fazer, até chegar a noite e procurar um lugar para dormir”. Quando questionado se aprova o projeto e pretende continuar, ele responde: “estou gostando bastante, o ambiente da UFRN é gostoso e pretendo continuar, mas do futuro só quem sabe é Deus”.

Outro participante da extensão é B.O.S., 39 anos, que frequenta o Centro POP há cerca de dois anos e dorme no Albergue há três anos. No Tecer, ele é um dos frequentadores mais assíduos, joga vôlei de areia e considera que essa é uma oportunidade de ocupar o tempo e de tentar se reinserir na sociedade. “Durmo no Albergue e saio de lá de 6h da manhã, vou para o Viaduto do Baldo, lá eu fico esperando o Centro POP abrir para almoçar e depois fico por lá até voltar para o Albergue, mas a rua tem muita droga e é difícil ficar sem ter o que fazer quando você está lutando contra vício”, conta.

Além das atividades esportivas desenvolvidas, o grupo da extensão está produzindo cartilhas com o intuito de conscientizar as pessoas sobre o que elas podem fazer para ajudar a população de rua, além de tentar quebrar o preconceito. Os interessados em ajudar o projeto, com doações ou participando das ações, podem entrar em contato com o Tecer pelo e-mail projetotecer@neuro.ufrn.br.

Fonte: Assessoria de Comunicação - Instituto do Cérebro

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